Pode, se alguém usar essa doutrina como desculpa pra não anunciar Jesus. Mas isso não é uma consequência necessária do calvinismo. A ideia de que Deus escolhe e salva pessoas não elimina a ordem de pregar. Na Bíblia, Deus chama pessoas a crer em Cristo *por meio* da mensagem que outras pessoas anunciam.
O calvinismo ensina, entre outras coisas, que a salvação depende da graça de Deus, e não da capacidade humana de conquistar seu favor. Daí surge uma dúvida compreensível: se Deus já sabe quem vai salvar, por que falar de Jesus a alguém?
Porque saber que Deus age não significa que nossa participação seja desnecessária. Paulo pergunta, em Romanos 10:14-17, como as pessoas poderão crer naquele de quem não ouviram falar. Sua resposta deixa claro que é preciso que alguém anuncie a mensagem. Jesus também mandou seus discípulos fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28:19-20). Essas ordens valem independentemente da posição que alguém tenha sobre a eleição.
Há um episódio que mostra bem como as duas coisas podem andar juntas. Em Corinto, Paulo recebeu do Senhor a garantia de que havia pessoas naquela cidade que lhe pertenciam. O resultado não foi Paulo parar de falar. Ele permaneceu ali ensinando a palavra de Deus (Atos 18:9-11). A confiança na ação de Deus lhe deu motivo pra continuar, não pra desistir.
Também não cabe ao cristão tentar descobrir quem foi escolhido antes de anunciar o evangelho. Nós não temos essa informação. Nossa tarefa é apresentar Cristo às pessoas, chamá-las ao arrependimento e à fé, e receber quem vem a ele. Jesus afirmou que não rejeitaria aquele que viesse a ele (João 6:37).
Isso não quer dizer que toda crítica ao calvinismo seja fruto de um mal-entendido. Cristãos que levam a Bíblia a sério discordam, por exemplo, sobre o alcance da morte de Cristo e sobre como a escolha de Deus se relaciona com a resposta humana. Mas não é preciso resolver aqui todas essas diferenças pra afirmar algo que o Novo Testamento ensina com clareza: o evangelho deve ser anunciado.
Na prática, qualquer cristão pode errar de dois modos. Um é ficar calado, pensando que Deus salvará as pessoas sem que precisemos obedecer à ordem de pregar. O outro é agir como se tudo dependesse da nossa habilidade de convencer alguém. Paulo evitou os dois extremos: ele anunciou e trabalhou, mas reconheceu que é Deus quem produz o crescimento (1 Coríntios 3:6-7).
Portanto, o calvinismo pode se tornar um obstáculo quando é entendido ou praticado de um jeito que enfraquece a evangelização. Mas também pode dar coragem a quem prega: a pessoa fala de Jesus com fidelidade, sabendo que não precisa forçar uma decisão nem controlar o resultado. O dever de anunciar é nosso; a salvação pertence a Deus.