Paulo está falando da bebida consumida em refeições religiosas dedicadas aos ídolos. Ele a chama de “cálice dos demônios” porque participar daqueles banquetes não era simplesmente comer e beber: era tomar parte numa celebração feita em honra a outros deuses. Por isso, um cristão não podia participar desse tipo de culto e, ao mesmo tempo, participar da Ceia do Senhor.
O ponto fica mais claro quando olhamos o que Paulo diz antes. Na Ceia, os cristãos compartilham o pão e o cálice como expressão de sua união com Cristo e uns com os outros (1 Coríntios 10:16-17). Paulo lembra também que, em Israel, comer dos sacrifícios estava ligado à participação no culto realizado no altar (1 Coríntios 10:18). Então ele aplica o mesmo raciocínio aos banquetes dedicados aos ídolos: participar daquela refeição religiosa significava se envolver no culto que ela celebrava.
Isso não quer dizer que Paulo considerasse os ídolos deuses de verdade. Ele já havia dito que um ídolo não é deus e que há um só Deus (1 Coríntios 8:4-6). Mas, em 1 Coríntios 10:19-20, ele faz uma distinção importante: o ídolo não é um deus real; ainda assim, o culto oferecido a ele não é espiritualmente inofensivo. Paulo associa aqueles sacrifícios aos demônios e não quer que os cristãos participem desse culto.
Também não significa que qualquer comida antes oferecida a um ídolo estivesse proibida. Mais adiante, Paulo permite comprar e comer carne vendida no mercado sem investigar sua procedência (1 Coríntios 10:25-26). A diferença está entre comer um alimento e participar de uma cerimônia religiosa. A carne, por si só, não era o problema. O problema era se juntar a uma refeição realizada como parte da adoração a um ídolo.
Assim, os dois cálices de 1 Coríntios 10:21 mostram uma escolha de lealdade. Participar da Ceia do Senhor expressa comunhão com Cristo. Participar de um banquete dedicado a ídolos expressava envolvimento com outro culto. Paulo não está ensinando que um gole de vinho dá poder aos demônios sobre alguém. Ele está advertindo que não é possível adorar a Cristo e, ao mesmo tempo, tomar parte na adoração que se opõe a ele.