A diferença principal está em como os textos foram reunidos e transmitidos. O Alcorão foi recitado e também registrado em vida de Maomé, mas, segundo os relatos tradicionais islâmicos, recebeu uma forma escrita padronizada algumas décadas depois de sua morte, sob a autoridade do califa Uthman. Já os livros da Bíblia foram copiados e compartilhados por comunidades diferentes, ao longo de muitos séculos, sem que uma única autoridade controlasse todas as cópias.
Isso não significa que o Alcorão tenha ficado apenas na memória das pessoas até Uthman, nem que cada cópia bíblica seja idêntica às demais. Pra fazer uma comparação justa, é importante entender os dois processos.
Segundo a tradição islâmica, após a morte de Maomé, em 632 d.C., passagens do Alcorão eram conhecidas de memória e também existiam em registros escritos. Essa tradição conta que houve uma primeira coleta no tempo do califa Abu Bakr. Mais tarde, diante de diferenças na recitação entre comunidades, Uthman mandou preparar cópias de um texto padronizado e enviá-las a centros importantes do mundo islâmico. Ele também ordenou a eliminação de outros materiais escritos que pudessem manter essas diferenças.
Essa decisão ajudou a estabelecer um texto comum. Ao mesmo tempo, torna mais difícil comparar diretamente os registros anteriores que não sobreviveram. Mas seria exagerado dizer que não existe apoio de manuscritos para o Alcorão: há manuscritos antigos e fragmentos importantes pra estudar sua história. Também não é correto afirmar que todas as formas de recitação se tornaram absolutamente iguais. Existem leituras reconhecidas na tradição islâmica, com diferenças que precisam ser consideradas quando alguém fala da preservação exata de cada palavra.
A história da Bíblia é diferente. O Antigo Testamento já era copiado muito antes de Jesus. Os Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, permitem comparar textos do Antigo Testamento de antes da era cristã com cópias posteriores. Essa comparação mostra uma transmissão cuidadosa em muitos trechos, mas também revela diferenças entre manuscritos.
No caso do Novo Testamento, seus livros foram escritos nas décadas seguintes à vida de Jesus, não imediatamente após sua morte. Eles passaram a ser copiados e compartilhados entre igrejas de vários lugares. Como não dependiam de um único conjunto de cópias guardado por uma autoridade central, hoje é possível comparar um grande número de manuscritos, além de traduções antigas e citações feitas pelos primeiros cristãos.
Essa quantidade de testemunhos tem duas consequências. Ela nos dá muitos meios pra investigar o texto antigo, mas também deixa visíveis as diferenças surgidas nas cópias. A maioria delas é pequena. Outras são maiores e aparecem assinaladas em muitas Bíblias atuais, como o final longo de Marcos (Marcos 16:9-20) e o relato da mulher acusada de adultério (João 7:53–8:11). Em vez de esconder essas dificuldades, a comparação dos manuscritos permite identificá-las e estudá-las.
Portanto, a Bíblia não foi preservada porque todos os copistas escreveram sem cometer erros. Uma de suas vantagens para a pesquisa é justamente haver cópias de épocas e lugares diferentes que podem ser comparadas. Quanto ao Alcorão, a padronização promovida por Uthman é uma parte decisiva da sua história textual, mas não autoriza dizer que nada anterior pode ser estudado ou que sabemos, só por causa desse processo, que o texto original foi perdido.
Por fim, preservação e origem divina são perguntas diferentes. Manuscritos podem nos ajudar a descobrir o que um texto antigo dizia; não provam, por si mesmos, que sua mensagem veio de Deus. Para o cristão, a confiança na Bíblia envolve tanto o exame responsável de sua transmissão quanto a fé na mensagem que ela apresenta sobre Jesus Cristo.