Porque os tradutores usaram uma palavra antiga para nomear um animal que aparece no texto hebraico, mas cuja identificação exata não é totalmente certa. Isso não quer dizer que a Bíblia esteja falando do unicórnio dos contos de fantasia, parecido com um cavalo de um chifre.
A palavra hebraica é *re’em*. Nas passagens em que ela aparece, o animal é apresentado como forte, selvagem e difícil de dominar. Em Jó 39:9-10, por exemplo, Deus pergunta a Jó se esse animal aceitaria trabalhar pra ele ou arar seu campo. A resposta esperada é não: trata-se de um bicho que ninguém poderia simplesmente prender e usar como um boi doméstico.
A tradução “unicórnio” tem uma história. A antiga tradução grega do Antigo Testamento usou uma palavra que podia indicar um animal de um chifre. Mais tarde, a tradução latina usou *unicornis*. Esse modo de traduzir influenciou versões bíblicas posteriores. Só que ele pode dar uma impressão errada ao leitor de hoje, porque atualmente “unicórnio” lembra quase sempre o animal imaginário das histórias.
Por isso, muitas traduções atuais preferem “boi selvagem”. Uma possibilidade bastante conhecida é que o *re’em* fosse o auroque, um bovino selvagem, grande e forte, que já foi extinto. Não dá pra afirmar com certeza que era exatamente esse animal. Mas a ideia de um bovino selvagem combina com a descrição de Jó. Também ajuda a entender Deuteronômio 33:17, onde a imagem envolve *chifres*, no plural — mais um motivo pra não imaginar necessariamente um animal de um único chifre.
Então a resposta é simples: a Revista e Corrigida de 1969 preservou uma escolha de tradução antiga. O ponto das passagens bíblicas não é ensinar que existiu o unicórnio da fantasia, mas usar a força de um animal selvagem conhecido naquele mundo pra tornar a mensagem clara.