Algumas histórias da Bíblia se parecem, sim, com relatos antigos de outros povos. A dúvida é o que essa semelhança significa. Ela não prova, por si só, que a Bíblia copiou outra história. Também não prova que os dois relatos descrevem o mesmo acontecimento. Pra avaliar cada caso, precisamos olhar os detalhes e perguntar quando e por que aquelas histórias foram contadas.
O dilúvio é um bom exemplo. Em Gênesis 6–9, Deus avisa Noé sobre um grande julgamento, manda que ele construa uma arca e preserva sua família e os animais. Há também um relato de dilúvio no *Épico de Gilgamesh*, uma obra antiga da Mesopotâmia. As semelhanças são reais e merecem atenção.
Mas as diferenças também importam. Em Gênesis, o dilúvio está ligado à violência e à maldade humana, e a história termina com uma aliança de Deus com Noé. No relato mesopotâmico, os deuses agem por outros motivos e até discordam entre si. Existem várias explicações possíveis pra semelhança: os povos podem ter preservado lembranças de uma grande inundação; as histórias podem ter vindo de uma tradição antiga compartilhada; ou os autores bíblicos podem ter conhecido relatos de sua região e contado a história de modo a ensinar algo diferente sobre Deus. A semelhança, sozinha, não decide qual dessas explicações é a certa.
Outro exemplo que costuma aparecer é Pandora, da tradição grega, comparada a Eva. Mas aqui é preciso cuidado. As duas histórias envolvem uma mulher e o sofrimento humano, porém seus acontecimentos e ensinamentos são bem diferentes. Em Gênesis 3, a serpente engana Eva, Adão também desobedece, e ambos são responsabilizados. Deus anuncia as consequências do pecado e fala de um descendente da mulher que enfrentaria a serpente. Na história grega, Pandora abre um recipiente do qual saem males que atingem a humanidade; a esperança permanece dentro dele em uma versão antiga do relato. Dizer que as duas histórias falam do mesmo fato histórico vai além do que podemos demonstrar.
Há ainda a história do nascimento de Sargão, um antigo rei da Mesopotâmia. Num relato sobre ele, sua mãe o coloca num cesto no rio, e outra pessoa o encontra e cria. Isso lembra o que acontece com Moisés em Êxodo 2. Só que as tabuletas que preservam essa história da infância de Sargão foram escritas muito depois da época em que ele viveu. Isso impede uma conclusão apressada nos dois sentidos: não dá pra afirmar simplesmente que Êxodo copiou essa história, nem que a história de Sargão copiou Êxodo. A idade do rei não é a mesma coisa que a idade do texto que conta sua infância.
Então, a resposta mais honesta é esta: a Bíblia tem semelhanças com histórias de outros povos, mas cada semelhança precisa ser examinada por seus próprios méritos. Às vezes há temas conhecidos em várias culturas; em outros casos, pode ter havido contato entre tradições. O que não podemos fazer é transformar uma possibilidade em certeza sem provas suficientes.
Pra quem crê na inspiração da Bíblia, isso não é uma ameaça à fé. Segundo 2 Timóteo 3:16, as Escrituras vêm de Deus. Isso não exige que seus escritores tenham vivido isolados, sem conhecer a linguagem e as histórias do mundo ao redor. A pergunta principal é o que o texto bíblico está ensinando. Em Gênesis, por exemplo, não encontramos deuses rivais agindo por capricho, mas um só Deus que julga o mal, preserva vidas e faz promessas. As semelhanças merecem estudo; as diferenças ajudam a entender por que a Bíblia conta essas histórias.