A Bíblia não fala diretamente de matriarcado como forma de organizar uma sociedade. Por isso, seria exagero dizer que ela aprova ou proíbe, com essa palavra, todo sistema em que as mulheres tenham mais autoridade. O que podemos fazer é olhar para os princípios bíblicos sobre homens, mulheres, família e liderança.
Primeiro, vale esclarecer o termo. Matriarcado costuma significar uma organização em que as mulheres detêm a autoridade principal por serem mulheres. Isso não é a mesma coisa que uma mulher governar, sustentar a casa ou criar os filhos sozinha. Também não é a mesma coisa que uma família contar sua descendência pelo lado da mãe. Essas situações, por si só, não fazem de uma sociedade um matriarcado.
A Bíblia começa dizendo que Deus criou homem e mulher à sua imagem e deu aos dois a responsabilidade de cuidar da criação (Gênesis 1:27-28). Portanto, a dignidade da mulher não depende da autoridade de um homem, e a dignidade do homem não diminui quando uma mulher exerce liderança. Nenhum dos dois recebeu permissão pra tratar o outro como inferior.
Depois da desobediência de Adão e Eva, Deus disse à mulher que seu marido a governaria (Gênesis 3:16). Mas é importante perceber o contexto: Deus estava descrevendo as consequências do pecado, não apresentando o domínio de um sexo sobre o outro como ideal. E Adão não foi repreendido simplesmente por ter ouvido sua mulher; ele foi repreendido porque desobedeceu à ordem que Deus lhe havia dado (Gênesis 3:17). Não dá pra usar essa história como prova de que uma mulher não deve aconselhar ou tomar iniciativas.
Quando chegamos ao casamento, o Novo Testamento chama o marido a amar a esposa com o cuidado e a entrega demonstrados por Cristo, e orienta a esposa a respeitar a liderança do marido (Efésios 5:21-33). Cristãos entendem de maneiras diferentes como essas orientações devem ser vividas hoje. Mas o texto certamente não dá ao marido licença pra mandar por egoísmo, maltratar a esposa ou ignorar sua voz. Também não apresenta o casamento como uma disputa pra decidir quem domina quem.
Na igreja, há divergências entre cristãos sobre as funções de liderança reservadas a homens ou abertas também a mulheres, especialmente na interpretação de 1 Timóteo 2:12. Não seria correto usar esse versículo, sem explicar a discussão, pra concluir que mulheres não podem exercer autoridade em nenhuma situação. A própria Bíblia mostra mulheres atuando de modo importante: Débora julgava Israel (Juízes 4:4-5), Hulda foi consultada como profetisa (2 Reis 22:14-20), e Priscila ajudou a instruir Apolo na fé (Atos 18:26).
Então, qual é a resposta? A Bíblia não ensina que as mulheres devam governar os homens como grupo, mas também não ensina que mulheres sejam incapazes de liderar. Ela afirma o valor de ambos, mostra responsabilidades no casamento e chama todos a exercer qualquer autoridade com justiça e cuidado, nunca como desculpa pra dominar os outros. Por isso, não precisamos escolher entre defender um matriarcado ou defender a opressão das mulheres por um patriarcado. A pergunta mais útil, em cada situação, é se homens e mulheres estão sendo tratados com a dignidade que Deus lhes deu e se a autoridade está sendo usada pra servir, não pra controlar.