Devemos levar a Bíblia a sério e procurar entender o que cada passagem realmente quer dizer. Mas isso não significa tratar todas as frases como descrições literais. A Bíblia conta acontecimentos, dá mandamentos, apresenta poemas, registra parábolas e usa figuras de linguagem. Ler bem é prestar atenção a essas diferenças.
Pense numa frase comum: “Fiquei esperando uma eternidade.” Ninguém precisa acreditar que a espera durou milhões de anos pra entender que ela foi longa. Com a Bíblia acontece algo parecido. Quando o salmista pede que Deus o proteja “à sombra das tuas asas” (Salmo 17:8), não está dizendo que Deus tem asas. Está falando do cuidado e da proteção de Deus. Entender a figura de linguagem não enfraquece o texto; é justamente entender o que ele quis comunicar.
Por outro lado, não podemos chamar uma passagem de “simbólica” só porque ela nos incomoda. Jesus, por exemplo, tratou os mandamentos de Deus como palavras que deviam orientar suas escolhas. Quando foi tentado, respondeu com passagens de Deuteronômio (Lucas 4:1-13). Depois de ressuscitar, mandou seus seguidores fazer discípulos e ensiná-los a obedecer ao que ele havia ordenado (Mateus 28:19-20). Em Atos, vemos os discípulos anunciando Jesus a outras pessoas. Eles entenderam que aquela ordem precisava ser cumprida, não apenas admirada.
Então, como saber quando uma passagem fala de modo direto e quando usa uma figura? O caminho é ler o trecho dentro do seu contexto. Quem está falando? A quem? O texto está narrando um acontecimento, dando uma ordem ou compondo um poema? As frases ao redor ajudam a entender aquela expressão? Em alguns casos, a própria Bíblia explica o sentido da imagem, como Jesus faz ao explicar suas parábolas.
Isso também evita um erro comum: achar que “interpretar literalmente” significa entender cada palavra isolada, sem considerar a intenção de quem escreveu. Se Jesus diz “Eu sou a porta” (João 10:9), sua afirmação é verdadeira, mas ele não está dizendo que é uma porta de madeira. Ele está ensinando que é por meio dele que as pessoas recebem salvação. O sentido pretendido por Jesus é o que devemos aceitar.
Há passagens sobre as quais cristãos fiéis à Bíblia chegam a interpretações diferentes, especialmente em textos poéticos e proféticos. Nesses casos, vale examinar os argumentos com cuidado e não apresentar como certeza aquilo que o texto não deixa claro. Mas a existência dessas dificuldades não nos dá liberdade pra fazer a Bíblia dizer qualquer coisa.
Portanto, sim: devemos crer no que a Bíblia ensina e obedecer ao que ela ordena. E, pra fazer isso, precisamos lê-la conforme ela foi escrita. Quando relata um acontecimento, não devemos descartá-lo sem motivo; quando usa uma figura, não devemos transformá-la numa descrição física. A pergunta mais útil não é “Consigo tomar cada palavra ao pé da letra?”, mas “O que esta passagem está comunicando?”.