Quando os cristãos falam da inerrância da Bíblia, normalmente estão falando dos livros como foram escritos originalmente. A ideia é que Deus guiou os autores bíblicos de modo que aquilo que escreveram era verdadeiro e não continha erros. Isso não significa que cada cópia feita depois, ou cada tradução, esteja livre de falhas humanas.
A distinção importa porque não temos hoje, por exemplo, a folha que Paulo escreveu ao enviar uma carta. Temos cópias dos textos bíblicos, feitas e preservadas ao longo dos séculos. Quem copiava podia pular uma palavra, repetir uma linha ou trocar letras. Quem traduz também precisa tomar decisões e pode cometer erros. A Bíblia ensina que as Escrituras vêm de Deus e que seus autores falaram movidos pelo Espírito Santo (2 Timóteo 3:16-17; 2 Pedro 1:20-21). Ela não diz que todo copista e todo tradutor receberia essa mesma orientação ao trabalhar.
Mas isso não quer dizer que a Bíblia que temos seja pouco confiável. Como existem muitos manuscritos, os estudiosos podem compará-los e identificar grande parte das diferenças entre as cópias. Muitas são pequenas, como uma palavra escrita de outro jeito ou uma mudança na ordem das palavras. Algumas são mais importantes pra decidir a redação de uma passagem, e por isso boas edições e traduções costumam indicar ao leitor quando há uma dúvida relevante.
Também é preciso cuidado ao falar de “erro”. Se duas passagens parecem difíceis de conciliar, não devemos concluir imediatamente que um copista errou: talvez nos falte entender melhor o contexto. Por outro lado, quando os manuscritos mostram que uma palavra foi copiada de formas diferentes, não há motivo pra fingir que a diferença não existe. Uma coisa é perguntar *o que o autor escreveu*; outra é perguntar *se o que ele escreveu é verdadeiro*.
Então, sim: a afirmação de inerrância se aplica diretamente aos textos originais, não a cada cópia ou tradução tomada isoladamente. Ainda assim, podemos ler a Bíblia hoje como Palavra de Deus e confiar na mensagem que ela transmite. Reconhecer possíveis falhas na transmissão de um trecho não apaga a inspiração dos livros bíblicos nem nos impede de estudar, ensinar e seguir o que eles dizem.