A Bíblia Etíope é a coleção de livros sagrados usada pela Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo. A Igreja Ortodoxa Eritreia Tewahedo também segue essa tradição. A principal diferença em relação à Bíblia protestante é quais livros fazem parte da coleção: a Bíblia protestante tem 66 livros; o cânon etíope costuma ser apresentado com 81. As duas tradições compartilham muitos livros, mas a etíope inclui outros escritos que os protestantes não reconhecem como Escritura.
Entre esses escritos estão 1 Enoque e Jubileus, antigos textos judaicos, além de 1–3 Meqabyan. Apesar do nome parecido, Meqabyan não é a mesma obra que os livros de Macabeus encontrados nas Bíblias católicas. A tradição etíope também inclui alguns escritos cristãos ligados à vida e à organização da igreja. A contagem de 81 livros pode exigir cuidado, porque as listas e a maneira de reunir ou separar certos textos variam dentro dessa tradição.
Há também uma diferença de língua e história. A tradição bíblica etíope foi preservada por muitos séculos em ge’ez, uma língua antiga que ainda é usada nos cultos, embora não seja mais falada no dia a dia. Isso não significa que toda Bíblia usada hoje na Etiópia esteja em ge’ez: há traduções em línguas atuais. O cristianismo tem uma longa história naquela região, e sua igreja preservou uma coleção de escritos diferente daquela adotada mais tarde pelos protestantes.
Uma dúvida comum é esta: se Judas menciona Enoque, por que 1 Enoque não está na Bíblia protestante? De fato, Judas 14–15 usa uma profecia encontrada em 1 Enoque. Isso mostra que Judas conhecia essa tradição e a considerou útil naquele ponto. Mas citar uma passagem não significa, por si só, reconhecer o livro inteiro como Escritura. Por outro lado, a citação explica por que 1 Enoque chama a atenção de quem estuda a Bíblia. A questão de incluí-lo no cânon depende de como cada tradição reconhece os livros que considera inspirados por Deus.
É aí que está a diferença mais profunda. Os protestantes recebem os 39 livros do Antigo Testamento e os 27 do Novo como a regra final para a fé e a vida cristã. A Igreja Etíope reconhece uma coleção mais ampla, recebida em sua própria tradição cristã. Não é correto dizer que todos os cristãos antigos usavam exatamente a lista protestante de 66 livros, nem que os livros adicionais foram incluídos simplesmente por serem antigos. Antiguidade e importância histórica não são, sozinhas, a mesma coisa que autoridade bíblica.
Portanto, a Bíblia Etíope não é apenas uma tradução diferente da Bíblia protestante. A diferença principal está no cânon — isto é, na lista de livros que cada igreja reconhece como Escritura. Conhecer essa distinção ajuda a entender por que duas tradições cristãs antigas podem ler muitos dos mesmos textos bíblicos e, ainda assim, ter Bíblias com quantidades diferentes de livros.