A resposta mais honesta é: a Bíblia permitiu e regulamentou formas de escravidão no mundo antigo, mas isso não significa que aprove toda forma de escravidão nem que os cristãos devam defendê-la hoje. Para entender por quê, precisamos olhar tanto para as leis que tratavam dessa prática quanto para o valor que a Bíblia dá a cada pessoa.
No Antigo Testamento, um israelita em situação de pobreza podia se tornar servo de outro israelita. A lei limitava esse serviço e mandava que, ao libertá-lo, o senhor lhe desse recursos para recomeçar (Deuteronômio 15:12-15). Também havia leis contra maus-tratos. Se um senhor causasse certos ferimentos permanentes a um escravo, deveria libertá-lo (Êxodo 21:26-27).
Mas seria errado concluir que toda escravidão descrita ali era apenas um trabalho temporário para pagar dívidas. A lei também permitia que israelitas possuíssem escravos estrangeiros e os deixassem como herança para seus filhos (Levítico 25:44-46). Essa é uma passagem difícil, e não devemos escondê-la. Tampouco devemos dizer que a escravidão antiga era sempre branda: uma pessoa escravizada podia sofrer violência e perder a liberdade de decidir sobre a própria vida.
Ao mesmo tempo, a Bíblia condenava claramente o sequestro de pessoas para vendê-las (Êxodo 21:16). No Novo Testamento, quem traficava pessoas aparece numa lista de praticantes de atos contrários ao ensino de Deus (1 Timóteo 1:9-10). Isso atinge diretamente uma das práticas que sustentaram o comércio de escravos nas Américas: capturar seres humanos e vendê-los. E a ideia de que alguém vale menos por causa da cor da pele ou da origem não combina com o ensino de que Deus criou os seres humanos à sua imagem (Gênesis 1:27).
Por que, então, a Bíblia não traz uma ordem geral abolindo a escravidão? Ela não nos dá uma explicação completa para isso. No Novo Testamento, os apóstolos orientaram cristãos que viviam numa sociedade onde a escravidão já existia. Paulo mandou os senhores tratarem seus escravos com justiça e abandonarem as ameaças, lembrando que ambos respondem ao mesmo Senhor (Efésios 6:9; Colossenses 4:1). Ao escrever a Filemom, pediu que ele recebesse Onésimo, que era escravo, como um irmão amado em Cristo (Filemom 16). Paulo não fez ali uma declaração geral exigindo a abolição, mas também não tratou Onésimo como alguém de menor valor.
É importante não confundir duas coisas: uma lei que regula uma prática existente não é, por si só, uma declaração de que aquela prática representa o ideal de Deus. Ainda assim, a permissão dada no Antigo Testamento é real; não desaparece só porque havia limites e proteções. A Bíblia nos obriga a reconhecer os dois fatos.
O que isso significa pra nós? Nenhum cristão pode usar a Bíblia para justificar o sequestro, o tráfico, o racismo ou o tratamento de pessoas como se elas fossem inferiores. A fé cristã nos ensina a reconhecer a dignidade de cada ser humano e a tratar o outro como gostaríamos de ser tratados (Lucas 6:31). Por isso, combater a exploração de pessoas — inclusive o trabalho forçado e o tráfico humano que ainda existem — é uma resposta coerente com o ensino de Jesus.