As semelhanças existem, mas não provam que a Bíblia copiou outro relato. Povos da antiga Mesopotâmia também contavam histórias sobre uma grande inundação, uma pessoa avisada com antecedência, um barco e sobreviventes. Essas histórias merecem ser levadas a sério quando comparamos os textos. O que elas não permitem é uma conclusão tão rápida quanto “Gênesis é uma cópia”.
Um dos relatos mais conhecidos aparece na *Epopeia de Gilgamesh*. Há também a história de *Atrahasis*. As cópias antigas dessas tradições são anteriores aos manuscritos bíblicos que chegaram até nós. Isso mostra que histórias de dilúvio circulavam havia muito tempo naquela região. Não mostra, por si só, que o autor de Gênesis abriu um desses textos e o reproduziu. Também é possível que os relatos tenham se desenvolvido a partir de lembranças ou tradições antigas compartilhadas. Não temos como reconstruir com certeza todo o caminho pelo qual cada história foi transmitida.
As diferenças ajudam a entender por que a comparação não deve parar nas semelhanças. Em Gênesis, Deus anuncia o Dilúvio diante da maldade e da violência humana, preserva Noé e sua família e, depois, estabelece sua aliança, prometendo não destruir novamente todos os seres vivos por um dilúvio (Gênesis 6:5, 11-13; 9:8-17). Nas histórias mesopotâmicas, aparecem vários deuses, com motivos e atitudes diferentes. Os relatos compartilham elementos da história, mas não dão a ela o mesmo sentido.
E quanto às histórias de dilúvio contadas por povos de outras partes do mundo? Elas mostram que grandes inundações deixaram marcas na memória de muitas comunidades. Mas seria ir além das evidências dizer que todas essas histórias descrevem o mesmo acontecimento. Também não é seguro usar a existência delas, sozinha, como prova de um dilúvio que cobriu o planeta inteiro. Inundações foram acontecimentos reais e devastadores em muitos lugares, e os relatos antigos precisam ser examinados um por um.
Para o cristão, Gênesis não é apenas mais uma história antiga de inundação. Jesus se refere aos dias de Noé ao falar da importância de estar preparado para o julgamento de Deus (Mateus 24:37-39), e Pedro também menciona Noé (2 Pedro 2:5). Isso mostra a importância do relato no ensino bíblico. Ao mesmo tempo, a fé no que a Bíblia ensina não exige afirmar que as semelhanças com outras histórias provam, por si mesmas, todos os detalhes históricos ou a extensão geográfica do Dilúvio — questões sobre as quais há discussão entre cristãos que levam a Bíblia a sério.
Então, a resposta mais cuidadosa é esta: a Bíblia não pode ser acusada de cópia simplesmente porque há relatos parecidos e mais antigos preservados. O que podemos afirmar é que Gênesis apresenta o Dilúvio dentro de uma mensagem própria: Deus leva a sério a maldade humana, preserva a vida e faz uma promessa à humanidade.