Não basta um livro dizer que veio de Deus. O Alcorão, o Livro de Mórmon e a Bíblia fazem afirmações que precisam ser examinadas. E, no caso dos livros chamados apócrifos, a pergunta é um pouco diferente: eles pertencem à própria Bíblia ou não? Pra responder com honestidade, precisamos olhar o que cada livro ensina, de onde veio e que razões existem pra confiar nele.
A principal razão cristã pra confiar na Bíblia é Jesus Cristo. Isso não significa simplesmente dizer: “A Bíblia é verdadeira porque a Bíblia diz que é.” A fé cristã também faz afirmações sobre acontecimentos que se passaram diante de outras pessoas: Jesus viveu, ensinou, foi crucificado, e seus primeiros seguidores anunciaram que o viram vivo depois da morte. Paulo chegou a mencionar testemunhas que, segundo ele, ainda podiam ser consultadas quando escreveu (1 Coríntios 15:3-8).
A ressurreição não pode ser repetida num laboratório. Ainda assim, não é apresentada no Novo Testamento como uma ideia bonita inventada pra consolar os discípulos, mas como algo que eles diziam ter acontecido. Por isso ela é tão importante nessa pergunta: se Jesus realmente ressuscitou, temos uma razão decisiva pra levar a sério o que ele ensinou sobre Deus e sobre as Escrituras.
Jesus reconhecia as Escrituras de Israel como a Palavra de Deus (Mateus 5:17-18; Marcos 7:8-13). Depois, encarregou seus apóstolos de transmitir seus ensinamentos, e os cristãos passaram a receber os escritos apostólicos como autoridade pra igreja (João 14:26; 1 Tessalonicenses 2:13; 2 Pedro 3:15-16). Assim, a confiança cristã no Antigo e no Novo Testamentos está ligada à confiança em Jesus e no testemunho dos apóstolos sobre ele.
Há outras razões que podem ser examinadas. Os livros bíblicos surgiram em épocas e situações diferentes, mas contam, ao longo da coleção, uma história que liga as promessas feitas a Israel à vida, morte e ressurreição de Cristo. Também podemos estudar seus manuscritos, seus autores e os lugares e acontecimentos que mencionam. Essas investigações são úteis, mas têm limites. Um manuscrito antigo nos ajuda a saber o que foi escrito; ele não prova, por si só, que Deus inspirou o texto. Do mesmo modo, confirmar um lugar mencionado na Bíblia não confirma automaticamente tudo o que ela ensina.
É preciso ter cuidado também ao falar de profecias. Os cristãos veem em Jesus o cumprimento das promessas de Deus, e o próprio Novo Testamento explica essa ligação (Lucas 24:25-27). Mas nem toda passagem é uma previsão simples, com uma única interpretação possível. Listas enormes de profecias e cálculos sobre as chances de Jesus cumpri-las podem dar uma impressão de precisão que os dados não permitem. É melhor examinar as passagens no contexto do que depender desses números.
E os apócrifos? Aqui não estamos falando de uma religião posterior que trouxe um novo livro. Estamos falando de antigos escritos judaicos que católicos e protestantes avaliam de maneiras diferentes. Vários deles são chamados pelos católicos de *deuterocanônicos* e fazem parte do Antigo Testamento católico. Os protestantes não os reconhecem como Escritura, embora possam considerá-los úteis pra entender a história e o pensamento judaico daquele período.
A diferença está, em grande parte, em qual coleção de livros deve ser reconhecida como o Antigo Testamento. Os protestantes dão peso especial às Escrituras hebraicas recebidas pelo povo judeu. Os católicos também consideram importante o uso de livros deuterocanônicos na tradição da igreja. Isso merece uma discussão cuidadosa. Não seria justo afirmar que Jesus citou todos os livros do Antigo Testamento, exceto esses, ou que todo livro inspirado precisa conter milagres e profecias. Esses argumentos não resolvem a questão. O ponto é que os cristãos divergem sobre os limites dessa coleção, não sobre a importância de Jesus.
O Alcorão e o Livro de Mórmon apresentam outra questão: ambos surgiram séculos depois dos escritos do Novo Testamento e fazem afirmações que precisam ser comparadas com o testemunho apostólico. O Alcorão honra Jesus, mas nega que ele tenha sido crucificado da maneira anunciada pelos cristãos (Alcorão 4:157). O Livro de Mórmon se apresenta como mais uma escritura sobre Jesus Cristo. A pergunta, então, não é apenas se esses livros contêm ensinamentos religiosos, mas se temos boas razões pra aceitar suas novas afirmações quando entram em conflito com a mensagem que os apóstolos anunciaram sobre Jesus.
Do ponto de vista cristão, uma revelação posterior não pode desfazer aquilo que Deus já revelou por meio de Cristo e que seus apóstolos testemunharam (Gálatas 1:8-9; Hebreus 1:1-2). Isso não exige ridicularizar quem crê nesses livros, nem repetir acusações históricas sem conferir os fatos. Exige comparar as mensagens e perguntar em quem há razões pra confiar.
Portanto, a resposta não depende de um único argumento, como uma descoberta arqueológica ou uma lista de profecias. A questão decisiva é quem Jesus é e o que aconteceu depois de sua crucificação. Se ele ressuscitou, sua autoridade dá fundamento à confiança cristã nas Escrituras que ele reconheceu e no testemunho dos apóstolos que escolheu. É a partir daí que o cristão avalia os outros livros que também afirmam falar em nome de Deus.