Perder um bebê durante a gravidez é uma perda real. E, junto com a tristeza, podem vir perguntas difíceis: “Por que aconteceu?” “Foi culpa minha?” “Deus está me castigando?” A Bíblia não revela por que cada aborto espontâneo acontece. Mas ela nos ajuda a não carregar culpas que não foram provadas e a buscar consolo em Deus sem fingir que a dor é pequena.
Um aborto espontâneo não é prova de castigo de Deus. Jesus deixou claro que não devemos olhar pra uma tragédia e concluir que as pessoas atingidas eram mais culpadas do que as outras (Lucas 13:1-5). Em outra ocasião, ele rejeitou a ideia de que a condição de um homem pudesse ser explicada simplesmente pelo pecado dele ou dos pais (João 9:1-3). Por isso, ninguém deve dizer a uma mulher ou a um casal que perdeu um bebê: “Deus fez isso porque vocês pecaram.”
Também não é justo presumir que a mãe poderia ter evitado a perda. Há diferentes causas médicas possíveis, e às vezes a causa não é descoberta. Se houver dúvidas sobre o que aconteceu ou sobre os cuidados necessários agora, vale conversar com um profissional de saúde. Mas procurar uma explicação médica é diferente de procurar alguém pra culpar.
A Bíblia mostra que a vida de uma criança antes do nascimento importa pra Deus. O Salmo 139:13-16 fala do cuidado de Deus com a pessoa ainda no ventre materno. Isso não nos permite responder a todas as perguntas sobre uma gravidez interrompida, mas nos lembra que essa vida não deve ser tratada como algo sem importância. Chorar por esse bebê é compreensível. Não é falta de fé.
Deus também não exige que a pessoa esconda sua tristeza. Muitos salmos são orações de gente que sofre, chora e pergunta “até quando?” (Salmo 13, por exemplo). Jesus chorou diante da morte de Lázaro, mesmo sabendo que iria ressuscitá-lo (João 11:33-35). Sua reação nos mostra que esperança e lágrimas podem existir juntas. Quem passou por um aborto espontâneo pode falar com Deus sobre a saudade, a confusão e até a dificuldade de orar.
E quanto ao bebê? A Bíblia não diz de forma direta o que acontece com cada criança que morre antes de nascer. Por isso, seria desonesto prometer, com base num versículo, que os pais certamente vão reencontrá-la. Davi, depois da morte de seu filho pequeno, disse que um dia iria até ele (2 Samuel 12:23). Alguns cristãos veem nessa fala uma esperança de reencontro; outros entendem que Davi estava dizendo que também morreria. A passagem não resolve a questão sozinha.
O que podemos afirmar com segurança é que Deus conhece essa criança e é justo, bom e cheio de misericórdia (Gênesis 18:25; Salmo 103:8). Podemos confiar a ele aquilo que não conseguimos responder. E, pra quem está em Cristo, há a promessa de que a morte e o sofrimento não terão a última palavra (Apocalipse 21:4).
Se essa perda aconteceu com você, não precisa encontrar uma razão pra ela agora, nem transformar sua dor numa lição. Você pode lamentar a vida que esperava conhecer, receber cuidado de quem ama você e pedir a Deus forças pra atravessar um dia de cada vez. A Bíblia não explica tudo sobre o aborto espontâneo. Mas ela não chama sua tristeza de fraqueza, nem lhe dá motivo pra concluir que Deus a abandonou.