A primeira coisa é entender o que se quer dizer com “bebê projetado”. A expressão pode se referir a situações bem diferentes: tratar uma doença genética, escolher entre embriões com determinadas características ou alterar o DNA de um embrião pra tentar definir como a criança será. Essas situações não devem receber automaticamente a mesma resposta.
A Bíblia não fala de edição genética, mas oferece um ponto de partida: uma criança não é um produto feito conforme as preferências dos pais. Ela é uma pessoa, cuja vida tem valor diante de Deus. O Salmo 139:13-16 fala do cuidado de Deus com a vida ainda no ventre. Por isso, ao avaliar qualquer tecnologia, o cristão precisa pensar não só no que ela permite fazer, mas também em como a criança será tratada.
Há uma diferença importante entre cuidar de uma criança e tentar fabricar uma criança com características escolhidas. Buscar um tratamento seguro pra evitar uma doença grave pode ser uma forma de cuidado. Já alterar embriões pra atender a preferências sobre aparência ou outras características trata a criança como alguém que precisa corresponder a um projeto. Isso levanta uma pergunta séria: estaremos acolhendo uma pessoa ou tentando selecionar o tipo de pessoa que queremos?
Mesmo quando a intenção é prevenir doenças, é preciso muita cautela. Alterações genéticas feitas num embrião podem ter consequências difíceis de prever e, em certos casos, ser transmitidas aos descendentes. A criança não pode consentir nem assumir os riscos da decisão. Também importa como a pesquisa ou o tratamento é realizado. Se envolve criar embriões e descartar alguns deles, surge outra preocupação para muitos cristãos: o dever de proteger a vida humana desde seu início. Nem todo procedimento ligado à fertilização ou à genética é igual, então cada caso precisa ser examinado com atenção.
Isso não significa achar que tratar uma doença é contrariar a vontade de Deus. Quando Jesus encontrou um homem que havia nascido cego, ele rejeitou a ideia de que aquela condição fosse castigo pelo pecado do homem ou de seus pais (João 9:1-3). O relato não ensina que devemos deixar de ajudar quem tem uma deficiência ou doença. Ao contrário, Jesus cuidou daquele homem. Também não devemos reduzir uma pessoa à sua condição física, como se a vida dela tivesse menos valor por causa disso.
Assim, a pergunta decisiva não é simplesmente “podemos mudar genes?”. É: estamos procurando cuidar de uma pessoa, respeitando sua vida e sua segurança, ou tentando escolher e moldar uma criança segundo nossas preferências? A Bíblia não dá uma regra específica pra cada técnica que possa surgir. Mas seus ensinamentos sobre o valor da vida humana dão motivos fortes pra rejeitar o uso de crianças como experimentos ou produtos e pra examinar com seriedade até mesmo as aplicações que prometem benefícios médicos.