Deus não deu a Balaão permissão pra amaldiçoar Israel. Ele permitiu que Balaão viajasse com os homens de Moabe, mas deixou claro que ele só poderia fazer o que Deus mandasse. A ira de Deus, portanto, não significa necessariamente que a viagem, por si só, fosse proibida. O problema estava no caminho que Balaão queria seguir — e na maneira como ele reagia à ordem que tinha recebido.
Balaão havia sido chamado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar o povo de Israel. Na primeira vez que os mensageiros chegaram, Deus disse a Balaão que não fosse com eles e que não amaldiçoasse Israel, porque aquele povo era abençoado (Números 22:12). Balaque, então, enviou homens mais importantes e ofereceu uma recompensa maior. Balaão consultou Deus outra vez. Dessa vez, Deus permitiu que ele fosse, mas impôs uma condição: Balaão deveria fazer somente o que Deus lhe dissesse (Números 22:15-20).
É por isso que o versículo seguinte surpreende: Balaão partiu, e Deus ficou irado. O próprio relato ajuda a entender o motivo. Quando o anjo do Senhor apareceu no caminho, disse que estava ali para se opor a Balaão porque o caminho dele era contrário à vontade de Deus. Depois, deixou Balaão continuar, repetindo a mesma condição: ele só poderia dizer o que Deus mandasse (Números 22:22, 32-35). Deus não estava simplesmente proibindo a viagem que havia acabado de permitir. Estava confrontando Balaão *naquilo que ele pretendia fazer*.
O texto não conta todos os pensamentos de Balaão naquele momento, então não dá pra afirmar exatamente o que ele planejava fazer durante a viagem. Mas o restante da Bíblia mostra que seu interesse não era inocente. Pedro diz que Balaão amou o pagamento que receberia por fazer o mal (2 Pedro 2:15-16). Mais tarde, Israel foi levado a pecar por um conselho dado por ele (Números 31:16; Apocalipse 2:14). Isso ajuda a entender por que Deus se opôs a Balaão, mesmo tendo permitido que ele partisse: Balaão queria o que Balaque oferecia, mas Deus não permitiria que ele usasse aquela viagem pra se voltar contra Israel.
A cena da jumenta deixa isso ainda mais claro. Ela viu o anjo no caminho e tentou desviar; Balaão não viu nada e a espancou. Só depois Deus abriu os olhos dele (Números 22:23-31). Balaão precisava perceber que não conduziria aquela missão do jeito que quisesse.
Assim, Deus não mudou de ideia sobre Israel. Desde o começo, sua ordem era que Balaão não amaldiçoasse o povo. O que mudou foi a permissão para viajar, não a vontade de Deus quanto ao resultado. Balaão pôde seguir, mas, diante de Balaque, teve de transmitir as palavras que Deus lhe deu, abençoando Israel em vez de amaldiçoá-lo (Números 23–24).