Depende do contexto. Astúcia pode ser a habilidade de perceber uma situação e agir com cuidado, mas também pode ser a habilidade de enganar alguém. A Bíblia valoriza a primeira e condena a segunda. Por isso, ao encontrar essa palavra, a pergunta mais importante é: a pessoa está usando sua inteligência pra agir com sabedoria ou pra conseguir algo por meio da mentira?
Jesus ensinou seus discípulos a serem prudentes como as serpentes e, ao mesmo tempo, inocentes como as pombas (Mateus 10:16). Eles precisariam reconhecer perigos e saber como agir, sem se tornar desonestos. Ser prudente não é ser ingênuo; ser honesto não exige deixar de pensar.
Já a astúcia usada pra enganar aparece, por exemplo, quando Paulo lembra como a serpente enganou Eva (2 Coríntios 11:3). Nesse caso, a habilidade foi usada pra fazer alguém acreditar numa mentira. É esse tipo de atitude que a Bíblia reprova. Deus orienta seu povo a não mentir nem enganar, mas a falar a verdade (Levítico 19:11; Efésios 4:25).
A história de Jacó ajuda a ver essa diferença. Quando Esaú voltou faminto, Jacó aproveitou a ocasião pra conseguir dele o direito de primogenitura em troca de comida (Gênesis 25:29–34). O relato não diz que Jacó mentiu pra Esaú nessa ocasião; Esaú concordou com a troca. Mais tarde, porém, Jacó se passou pelo irmão e enganou seu pai, Isaque, pra receber a bênção destinada a Esaú (Gênesis 27). Ali não houve apenas esperteza: houve mentira.
Quando Jesus disse que Natanael era um homem sem engano (João 1:47), fez um elogio à sua sinceridade. Esse é o ponto: a Bíblia não nos pede que deixemos de ser atentos ou inteligentes. Ela nos ensina a usar essas qualidades sem manipular, mentir ou prejudicar os outros.