A resposta mais honesta é: a Bíblia não dá uma autorização direta para a política de assentamentos de hoje. Ela fala da promessa de Deus de dar uma terra aos descendentes de Abraão, mas não diz que toda decisão territorial do atual Estado de Israel está certa. Pra avaliar os assentamentos, também precisamos considerar a história, a segurança de israelenses e os direitos dos palestinos que vivem nessas terras.
A Cisjordânia e Jerusalém Oriental passaram ao controle de Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Israel considera essas áreas importantes por razões históricas, religiosas e de segurança. Os palestinos também têm uma ligação antiga com elas e desejam estabelecer ali seu Estado, com Jerusalém Oriental como capital. Desde 1967, Israel construiu comunidades civis nesses territórios. É isso que normalmente se chama de *assentamentos*.
Do ponto de vista do direito internacional, a posição predominante é que esses assentamentos são ilegais: uma potência ocupante não deve transferir sua população civil para o território que ocupa. Israel contesta essa interpretação e questiona como ela se aplica a esses territórios. Essa disputa jurídica não apaga duas preocupações reais: Israel tem o direito de proteger sua população contra ataques, e os palestinos não devem perder suas casas, suas terras ou a possibilidade de viver com segurança e liberdade.
E o que a Bíblia acrescenta? Deus prometeu uma terra aos descendentes de Abraão, e passagens como Gênesis 15:18 e Josué 1:4 descrevem essa promessa. Por isso, muitos cristãos entendem que ela ainda tem um significado especial para o povo judeu. Outros cristãos, que também reconhecem a autoridade da Bíblia, entendem de modo diferente como essa promessa se relaciona com o Estado de Israel e suas fronteiras atuais. O texto bíblico, por si só, não identifica quais assentamentos modernos devem existir nem resolve como governar uma região onde outros povos também vivem.
Mesmo quem entende que a promessa da terra continua válida precisa levar em conta o restante das Escrituras. Deus ordenou a Israel que praticasse a justiça e não oprimisse o estrangeiro que vivia entre o povo (Levítico 19:33-34; Deuteronômio 10:18-19). Os profetas também condenaram a tomada injusta de propriedades (Miqueias 2:1-2). E Jesus ensinou seus seguidores a buscar a paz (Mateus 5:9). Portanto, uma convicção sobre a terra prometida não dispensa a obrigação de tratar com justiça as pessoas que moram nela.
Também não seria correto dizer que os palestinos não têm direito de viver ali por não serem descendentes das tribos de Israel. A Bíblia não ensina que só essas tribos podem morar na região. Da mesma forma, condenar ataques contra israelenses não exige justificar qualquer medida tomada pelo governo de Israel. É preciso avaliar as ações de cada lado sem culpar um povo inteiro pelos crimes de alguns.
Assim, não dá pra responder “sim” aos assentamentos apenas citando a promessa bíblica da terra. Um cristão pode reconhecer a ligação histórica e bíblica do povo judeu com a região, defender a segurança de Israel e, ao mesmo tempo, questionar a construção de assentamentos que prejudique os palestinos ou torne uma solução pacífica mais difícil. A pergunta que a Bíblia nos ajuda a fazer não é só “a quem essa terra foi prometida?”, mas também “as pessoas que vivem nela estão sendo tratadas com justiça?”.