Essa pergunta é difícil, especialmente quando lemos que, na conquista de Canaã, Deus mandou Israel destruir cidades inteiras (Deuteronômio 20:16-18). A morte de crianças torna o assunto ainda mais doloroso. Não seria honesto tratar isso como algo simples ou fingir que a Bíblia responde a todas as perguntas que essa passagem nos deixa.
A primeira distinção importante é que nem toda violência contada no Antigo Testamento foi aprovada por Deus. A Bíblia também registra guerras, abusos e assassinatos pra mostrar o que as pessoas fizeram, muitas vezes de modo claramente errado. Mas isso não resolve o caso de Canaã, porque ali os textos dizem que Deus deu ordens a Israel. É esse o ponto que precisa de explicação.
Segundo a própria Bíblia, a conquista não aconteceu porque os israelitas fossem moralmente melhores, nem porque os cananeus pertencessem a outro povo. Deus diz a Israel que a terra não lhes seria dada por causa da sua justiça, mas por causa da maldade das nações que viviam ali (Deuteronômio 9:4-6). Levítico 18 descreve práticas que Deus condenava entre aqueles povos e avisa que Israel também seria expulso da terra se agisse da mesma forma (Levítico 18:24-28). Mais tarde, foi o que aconteceu: Israel sofreu o julgamento de Deus por seus próprios pecados. Portanto, o texto apresenta a conquista como um julgamento, não como uma licença pra odiar outra etnia.
A Bíblia também mostra que esse julgamento não foi apresentado como uma reação apressada. Muito antes da conquista, Deus disse a Abraão que a maldade dos amorreus ainda não havia chegado ao ponto do julgamento anunciado (Gênesis 15:16). E a origem de uma pessoa não a impedia de receber misericórdia. Raabe, moradora de Jericó, acolheu os israelitas porque reconheceu o Deus deles; ela e sua família foram poupadas (Josué 2; 6:22-25). Isso importa porque mostra que a questão não era simplesmente eliminar pessoas por serem cananeias.
Ainda assim, a explicação do julgamento não elimina a pergunta sobre as crianças. Elas não podem ser tratadas como se tivessem escolhido e praticado os mesmos males dos adultos. Alguns tentam responder dizendo que elas provavelmente se tornariam más no futuro, ou afirmando com certeza qual foi seu destino depois da morte. A Bíblia não nos dá base pra saber essas coisas a respeito de cada criança. Podemos confiar que Deus julga com justiça e misericórdia, mas não devemos apresentar como resposta certa aquilo que o texto não revela.
Também seria um erro usar a conquista como modelo pras ações dos cristãos hoje. Ela foi uma ordem ligada a um momento específico da história de Israel, não uma autorização permanente pra espalhar a fé pela força. Quando discípulos de Jesus quiseram pedir a destruição de uma aldeia que não o recebeu, ele os repreendeu (Lucas 9:51-56). E Jesus explicou que seu reino não seria defendido por seus seguidores com armas (João 18:36).
Então, por que Deus tolerou — e, em alguns casos, ordenou — uma violência tão terrível? A resposta que esses textos oferecem é que Deus julgou o mal de povos inteiros num período específico da história. Ao mesmo tempo, a Bíblia mostra que esse julgamento não se baseava na etnia, que Israel também estava sujeito à justiça de Deus e que havia lugar pra misericórdia. Isso ajuda a entender o que os textos afirmam, mas não faz a morte dos mais vulneráveis deixar de ser uma questão dolorosa. É possível levar essa dificuldade a sério sem esconder o que a Bíblia diz nem inventar respostas que ela não deu.