A resposta depende do que se quer dizer com “crentes”. Se estamos falando de pessoas que realmente confiaram em Deus, há bons motivos bíblicos pra confiar que Deus não as abandonou, mesmo quando pecaram. Mas cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia entendem de maneiras diferentes se alguém que foi salvo pode, mais tarde, deixar a fé e perder a salvação. Essa discussão não se resolve de um jeito diferente só porque a pessoa viveu no Antigo Testamento.
O ponto mais importante é que ninguém, naquela época, era salvo por cumprir a lei perfeitamente. Abraão viveu antes mesmo de a lei ser dada a Israel, e a Bíblia diz que ele creu em Deus, e isso lhe foi contado como justiça. Paulo usa justamente o exemplo de Abraão pra mostrar que ser aceito por Deus não é um pagamento por boas obras (Gênesis 15:6; Romanos 4:1-5). Os sacrifícios da antiga aliança também não tinham poder, por si mesmos, de apagar pecados. A carta aos Hebreus explica que a morte de Jesus é o fundamento da salvação também daqueles que viveram antes dele (Hebreus 9:15; 10:1-4).
Isso não quer dizer que Abraão e os outros conheciam todos os detalhes sobre Jesus que nós conhecemos hoje. Eles confiavam em Deus e nas promessas que tinham recebido. Hoje podemos olhar pra obra de Cristo já realizada. Em ambos os casos, a esperança da salvação está no que Deus faz, não na capacidade humana de nunca falhar.
E eles falharam. Davi, por exemplo, cometeu pecados graves. No Salmo 51, ele não tenta se justificar: confessa o pecado e pede perdão. Nesse mesmo salmo, pede que Deus não retire dele o seu Espírito. Essa oração não prova que Davi havia perdido a salvação. No Antigo Testamento, o Espírito também capacitava pessoas pra tarefas específicas; Saul, por exemplo, perdeu essa capacitação quando foi rejeitado como rei (1 Samuel 16:14). Não devemos confundir a perda de uma função dada por Deus com a perda da salvação.
A Bíblia dá razões fortes pra confiar na fidelidade de Deus para com os seus. Hebreus 11 apresenta pessoas do Antigo Testamento que viveram pela fé, apesar de suas fraquezas, e diz que elas participam conosco do cumprimento da promessa de Deus (Hebreus 11:39-40). Jesus também ensina que sua missão é não perder aqueles que o Pai lhe deu (João 6:39-40). Por isso, muitos cristãos entendem que quem pertence de fato a Deus será guardado por ele até o fim.
Outros cristãos leem as advertências bíblicas contra abandonar a fé como avisos de que essa possibilidade é real também para alguém que creu. A diferença entre essas interpretações precisa ser reconhecida; não basta dizer que Deus não muda pra encerrar a questão.
Então, o que podemos afirmar com segurança sobre os crentes do Antigo Testamento? Eles não tinham uma salvação inferior ou temporária. Eram aceitos pela graça de Deus, mediante a fé, e dependiam da obra de Cristo, ainda futura para eles. Seus pecados não os colocavam automaticamente fora do alcance do perdão divino. A segurança deles, como a nossa, não estava em nunca errar, mas na fidelidade do Deus em quem confiavam.