Não houve uma reunião em que alguém escolheu, de uma vez só, todos os livros do Antigo Testamento. Eles foram escritos ao longo de muitos séculos e, com o tempo, o povo judeu passou a reconhecer certos escritos como Palavra de Deus. Esse conjunto de livros é chamado de cânone.
Há uma distinção importante aqui: reconhecer um livro como inspirado não é o mesmo que torná-lo inspirado. Na compreensão cristã, a autoridade das Escrituras vem de Deus, não de uma decisão humana. Mas isso não significa que conheçamos todos os detalhes de como cada livro foi reconhecido. A Bíblia não traz uma ata desse processo, e os registros históricos são limitados.
O reconhecimento aconteceu aos poucos. A Lei de Moisés tinha um lugar central na vida de Israel; Deuteronômio 31:24-26, por exemplo, conta que suas palavras foram escritas e guardadas junto à arca da aliança. Outros escritos também passaram a ser recebidos como autoridade para o povo. Séculos depois, Jesus se referiu às Escrituras judaicas como a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos (Lucas 24:44). Isso mostra que ele e seus ouvintes já conheciam uma coleção de escritos sagrados, embora essa referência não apresente uma lista livro por livro.
Os testemunhos antigos ajudam a enxergar esse processo, mas precisam ser lidos com cuidado. A Septuaginta começou a ser produzida quando judeus traduziram suas Escrituras pro grego, a partir do século III antes de Cristo. Ela mostra que esses escritos já circulavam e eram importantes. Porém, não prova, sozinha, que todos os judeus tinham uma lista idêntica de livros. Além disso, a tradução surgiu em etapas; a história de que 70 ou 72 estudiosos traduziram toda a Bíblia hebraica de uma vez não deve ser tomada como descrição segura do que aconteceu.
No fim do século I depois de Cristo, o historiador judeu Flávio Josefo falou de 22 livros considerados dignos de confiança entre os judeus. Em outras contagens, aparecem 24 livros; nas Bíblias protestantes, são 39. Boa parte dessa diferença é apenas uma questão de divisão: os doze profetas menores, por exemplo, podiam ser contados como um único livro. O testemunho de Josefo é importante porque mostra que havia, em seu tempo, uma coleção definida de escritos reconhecidos. Ele, porém, não nos conta passo a passo como cada livro entrou nela.
Também não temos uma lista comprovada de critérios que os antigos escribas aplicaram a todos os livros, nem evidência de que um único grupo tenha oficializado sozinho o cânone inteiro. Os escribas tiveram um papel importante na cópia e no estudo dos textos, mas copiar e preservar os livros é uma questão diferente de determinar quais livros pertencem ao cânone.
Uma dúvida costuma surgir aqui: por que algumas Bíblias têm mais livros no Antigo Testamento? As Bíblias protestantes seguem os livros da Bíblia hebraica, organizados em 39 volumes. A Igreja Católica também recebe outros livros, chamados *deuterocanônicos*, como Tobias e Sabedoria; as igrejas ortodoxas têm tradições próprias sobre essa coleção. Por isso, dizer que “o cânone do Antigo Testamento foi decidido” exige cuidado: as tradições cristãs não chegaram todas à mesma lista.
Então, a resposta mais fiel à história é esta: os livros do Antigo Testamento foram escritos e recebidos ao longo de muitos séculos; quando Jesus viveu, as Escrituras judaicas já eram reconhecidas como autoridade, e testemunhos posteriores, como o de Josefo, ajudam a conhecer sua coleção. O que não podemos fazer é transformar esse processo longo numa votação única ou afirmar que sabemos exatamente como cada livro foi avaliado. Para os cristãos, o ponto principal é que as Escrituras não receberam sua autoridade de quem as reuniu: elas foram recebidas como Palavra de Deus.