João não estava apenas anunciando alguém que apareceria num futuro distante. Ele disse que seus leitores já tinham ouvido falar da vinda do anticristo, mas acrescentou que muitos anticristos já haviam surgido. Esse é o ponto principal de 1 João 2:18: a oposição a Jesus que eles esperavam ver no futuro já estava presente entre eles.
Quem eram esses “muitos anticristos”? No próprio capítulo, João fala de pessoas que haviam saído da comunidade cristã e negavam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (1 João 2:19-23). Em outra parte da carta, ele também alerta contra ensinos que não reconheciam Jesus Cristo como alguém que veio em carne, isto é, que ele realmente se tornou humano (1 João 4:2-3; veja também 2 João 7). Por isso, João não usa a palavra *anticristo* apenas como um nome misterioso para uma figura do fim dos tempos. Ele a aplica a quem se opõe à verdade sobre Jesus e procura enganar outras pessoas.
Isso ajuda a entender a expressão “última hora”. João não estava marcando uma data pra volta de Cristo. Ele via no surgimento desses falsos ensinos um sinal de que o período final da história da salvação já havia começado. Jesus tinha vindo, morrido e ressuscitado; agora seus seguidores aguardavam sua volta. Nesse intervalo, precisavam reconhecer e rejeitar os ensinos que distorciam quem ele é.
E quanto à ideia de um anticristo final? Cristãos entendem esse ponto de maneiras diferentes. Alguns relacionam a expectativa mencionada por João ao “homem da iniquidade” de 2 Tessalonicenses 2 e à besta de Apocalipse 13, esperando uma pessoa especialmente poderosa que se levantará contra Cristo antes de sua volta. Outros observam que João não identifica essas figuras entre si nem explica, nessa passagem, como seria a vinda de um indivíduo específico. Essa ligação pode ser defendida como interpretação, mas não deve ser apresentada como se fosse uma afirmação direta de 1 João 2:18.
Portanto, a resposta mais segura é esta: João reconhece uma expectativa futura, mas quer que seus leitores prestem atenção ao perigo que já existe. Pra ele, a pergunta mais urgente não é “quem será o anticristo?”, e sim “estou reconhecendo o verdadeiro Jesus ou aceitando um ensino que o nega?”.