A Igreja Anglicana é uma tradição cristã que se desenvolveu na Inglaterra e depois se espalhou por vários países. Ela surgiu da história da igreja inglesa durante a Reforma Protestante, mas conservou práticas de culto mais antigas, como orações feitas em conjunto, leituras bíblicas organizadas ao longo do ano e a celebração regular da Ceia do Senhor.
A primeira coisa importante é esta: nem todos os anglicanos acreditam exatamente nas mesmas coisas. Há igrejas anglicanas mais próximas do protestantismo evangélico e outras cuja maneira de celebrar o culto lembra mais a Igreja Católica. Ainda assim, elas compartilham uma história e algumas referências importantes.
A igreja cristã já existia na Inglaterra muitos séculos antes do rei Henrique VIII. O que aconteceu no século XVI foi uma mudança na relação dessa igreja com Roma. Henrique queria que seu casamento com Catarina de Aragão fosse anulado, mas não conseguiu a aprovação do papa. Em meio a esse conflito pessoal e político, o Parlamento inglês aprovou, em 1534, uma lei que reconhecia o rei como autoridade suprema da igreja na Inglaterra, rompendo sua ligação com a autoridade do papa.
Mas a história anglicana não se resume ao divórcio de Henrique. Ele rompeu com Roma sem fazer, de início, uma reforma profunda nas crenças da igreja. As mudanças doutrinárias ganharam força depois, especialmente durante o reinado de seu filho Eduardo VI. Nesse período, o arcebispo Thomas Cranmer teve um papel importante na elaboração do *Livro de Oração Comum*, usado pra orientar os cultos, e no desenvolvimento do ensino da igreja inglesa. Mais tarde, os 39 Artigos de Religião passaram a expressar sua identidade histórica protestante.
Em que os anglicanos creem, então? De modo geral, eles professam a fé cristã no Deus Pai, Filho e Espírito Santo; reconhecem Jesus Cristo como Salvador; leem a Bíblia nos cultos; e praticam o batismo e a Ceia do Senhor. O Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno, que resumem ensinamentos cristãos antigos, também ocupam um lugar importante na adoração anglicana.
Historicamente, os 39 Artigos ensinam, entre outras coisas, que a Bíblia contém tudo o que é necessário pra salvação e que somos aceitos por Deus por causa de Cristo, mediante a fé — não por mérito das nossas obras. Esses ensinos se relacionam com o que Paulo explica em Efésios 2:8-9 e Romanos 3:21-28. Ao mesmo tempo, as igrejas anglicanas não dão todas o mesmo peso aos Artigos hoje, e há diferenças reais entre elas em assuntos como a Ceia do Senhor, a autoridade da Bíblia e questões de prática cristã.
No culto, uma característica anglicana é a liturgia: uma ordem de orações, leituras e respostas feitas pela comunidade. Isso não significa, por si só, que a fé seja menos pessoal. Orar com palavras preparadas pode ajudar alguém a adorar a Deus com atenção. O cuidado necessário é o mesmo em qualquer igreja: não confundir a participação no culto com uma fé sincera. Jesus advertiu contra honrar a Deus com palavras enquanto o coração permanece longe dele (Marcos 7:6-8).
Hoje existe uma Comunhão Anglicana, formada por igrejas de diferentes países. O arcebispo de Canterbury, na Inglaterra, tem um papel histórico de união entre elas, mas não governa todas como o papa governa a Igreja Católica Romana. Cada igreja nacional tem sua própria liderança. Também há grupos que seguem a tradição anglicana, mas não fazem parte dessa Comunhão; algumas separações ocorreram por divergências doutrinárias e morais.
Portanto, “anglicano” identifica uma tradição cristã com origem na igreja inglesa, marcada pela Reforma e por uma forma própria de culto. Pra saber o que uma igreja anglicana específica ensina, porém, não basta conhecer o nome: é preciso observar o que ela afirma sobre a Bíblia, sobre Jesus Cristo e sobre a salvação.