João está dizendo que não dá pra fazer dos valores contrários a Deus aquilo que mais amamos e, ao mesmo tempo, dizer que amamos o Pai. A frase não significa que Deus deixou de amar aquela pessoa. Ela é um alerta sobre o que governa o coração dela.
Pra entender, é importante saber o que João chama de “mundo” nesse trecho. Ele não está falando da natureza criada por Deus, nem dizendo que devemos deixar de amar as pessoas. Está falando de uma maneira de viver que deixa Deus de lado. No versículo seguinte, João dá exemplos: desejos que nos levam a fazer o que é errado, a vontade de possuir aquilo que vemos e o orgulho daquilo que temos ou fazemos (1 João 2:16). O problema não é enxergar algo bonito, ter bens ou desfrutar da vida. É deixar que essas coisas comandem nossas escolhas, mesmo quando nos afastam de Deus.
Por isso João faz uma distinção tão firme. Amar o mundo, nesse sentido, não é sentir uma tentação ou cometer um pecado e se arrepender depois. É abraçar esse modo de vida, defendê-lo e preferi-lo à vontade de Deus. Quem faz disso sua escolha mostra que o amor pelo Pai não está dirigindo sua vida. A expressão também pode lembrar que o amor que vem de Deus transforma quem o recebe; em qualquer caso, o ponto de João é que esse amor não combina com uma vida entregue ao pecado.
Isso não quer dizer que o cristão nunca mais luta contra desejos errados. Na própria carta, João reconhece que os cristãos pecam e aponta Jesus como aquele por meio de quem recebem perdão (1 João 1:8–2:2). A diferença está em como a pessoa reage: ela pode reconhecer o pecado e voltar-se pra Deus, ou pode se acomodar nele e tratá-lo como algo que não precisa mudar.
João termina com uma razão pra não entregar o coração a esse modo de viver: o mundo e seus desejos passam, mas quem faz a vontade de Deus permanece (1 João 2:17). Então a pergunta que o texto nos ajuda a fazer não é “Será que já fui tentado?”, mas “Quando meus desejos entram em conflito com a vontade de Deus, a quem eu quero seguir?”