Para a fé cristã, não. O Alcorão foi escrito séculos depois dos livros do Novo Testamento e não tem autoridade para substituir a Bíblia. Ao mesmo tempo, é importante entender que muçulmanos e cristãos não veem esses livros da mesma maneira. Muitos muçulmanos consideram o Alcorão a revelação final de Deus e, por isso, o usam como referência decisiva quando ele parece entrar em conflito com a Bíblia.
O próprio Alcorão fala com respeito da Torá, dos Salmos e do Evangelho. Ele diz que Deus revelou a Torá e o Evangelho e apresenta o Evangelho como portador de orientação e luz (suras 3:3 e 5:46). Em outra passagem, orienta Maomé a perguntar aos que liam as Escrituras anteriores, caso tivesse dúvida (sura 10:94). Por isso, seria impreciso dizer que o Alcorão simplesmente manda ignorar tudo o que veio antes dele.
Mas essas passagens não resolvem, sozinhas, a diferença entre as duas religiões. Muitos muçulmanos entendem que Deus revelou a Torá e o Evangelho, mas que os textos bíblicos disponíveis hoje não preservam perfeitamente essas revelações. Os cristãos discordam dessa conclusão. E não basta dizer que o Alcorão menciona o “Evangelho” para afirmar que ele reconhece, sem diferenças, os quatro Evangelhos que temos no Novo Testamento.
Também vale esclarecer uma comparação que costuma aparecer: Jesus não tratou as Escrituras anteriores como se fossem um livro errado que precisava ser descartado. Ele disse que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (Mateus 5:17-18). Isso não significa que os cristãos devam continuar seguindo todas as regras dadas a Israel da mesma forma. O Novo Testamento ensina que, com Jesus, chegou a nova aliança (Hebreus 8:6-13). A diferença é que essa mudança faz parte da própria história contada pela Bíblia: os escritos anteriores apontam para aquilo que Jesus veio realizar.
É aí que está a questão principal. A Bíblia apresenta Jesus como o Filho de Deus que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou (1 Coríntios 15:3-4). O Alcorão apresenta Jesus de outra maneira e nega que ele tenha sido morto na cruz da forma ensinada pelos cristãos (sura 4:157). As duas afirmações não podem ser tomadas como se dissessem a mesma coisa. Por isso, para um cristão, não se trata apenas de escolher qual livro veio por último, mas de perguntar qual testemunho sobre Jesus deve ser recebido como verdadeiro.
Assim, a resposta depende do sentido da pergunta. Na prática religiosa muçulmana, o Alcorão ocupa o lugar de autoridade final. Na fé cristã, ele não substitui a Bíblia. E, pra entender por que isso importa tanto, o melhor caminho é ler os Evangelhos e conhecer o que eles dizem sobre Jesus.