Não. Jesus ensinou que alguém pode cometer adultério ao se divorciar e casar de novo, mas também mencionou uma exceção ligada à infidelidade sexual (Mateus 19:9). Por isso, não dá pra dizer que todo novo casamento depois de um divórcio é adultério. Também não dá pra dizer que o divórcio, por si só, deixa qualquer pessoa livre pra se casar novamente.
O ponto principal é entender por que o primeiro casamento terminou. Em Mateus 19, Jesus responde a pessoas que queriam saber se um homem podia se divorciar da esposa por qualquer motivo. Ele as leva de volta ao propósito de Deus: o casamento é uma união séria, que não deve ser desfeita por conveniência (Mateus 19:3-8). Então ele diz que quem se divorcia e casa com outra pessoa comete adultério, fazendo a ressalva da imoralidade sexual (Mateus 19:9; veja também Mateus 5:32). Jesus não estava tratando o divórcio como um simples procedimento que apaga os compromissos assumidos no casamento.
Paulo fala de outra situação: quando uma pessoa que não crê abandona o cônjuge cristão. Ele diz que o cristão não deve forçar a continuidade daquela convivência e que, nesse caso, não está sujeito à servidão (1 Coríntios 7:12-15). Muitos cristãos entendem que isso também permite à pessoa abandonada casar de novo. Outros entendem que a passagem permite aceitar a separação, mas não diz claramente que ela pode se casar novamente. É uma diferença importante, porque o texto não usa essas palavras.
E quando há violência? A Bíblia não apresenta uma frase dizendo expressamente que o abuso físico permite o divórcio e um novo casamento. Isso não significa que alguém deva permanecer numa situação perigosa. A proteção de quem sofre violência, e também dos filhos, precisa ser levada a sério. A pessoa pode precisar sair de casa e buscar ajuda. Cristãos divergem sobre o que essa separação significa para a possibilidade de um novo casamento. Seria errado usar essa divergência pra pressionar alguém a continuar exposto ao abuso.
Paulo também orienta que, havendo separação, se considere permanecer sem casar ou buscar a reconciliação (1 Coríntios 7:10-11). Mas reconciliação não é simplesmente voltar a viver junto: ela exige que o mal seja reconhecido e abandonado. Não se deve pedir a alguém que ignore uma traição persistente ou volte a uma situação de violência em nome da reconciliação.
Há ainda uma dúvida delicada: se uma pessoa se casou de novo quando não deveria, esse casamento é um adultério que continua todos os dias? As palavras de Jesus mostram a gravidade de entrar num novo casamento nessas condições. Elas não dão, porém, uma ordem pra desfazer todo segundo casamento. Deuteronômio 24:1-4, por exemplo, trata um casamento posterior como um casamento real, embora essa lei não seja uma aprovação geral do divórcio nem substitua o ensino de Jesus. Por isso, não é seguro concluir que a maneira de corrigir um novo casamento errado seja terminar também esse casamento.
Assim, a resposta é: casar de novo após o divórcio não é sempre adultério, mas pode ser. A infidelidade sexual é a exceção que Jesus menciona expressamente. Em outras situações, como abandono e violência, é preciso distinguir o que a Bíblia diz diretamente das conclusões que os cristãos tiram de seus ensinamentos. E, quando já existe um novo casamento, o caminho não é tratar os compromissos atuais como se não existissem, mas reconhecer com honestidade qualquer pecado cometido e viver esse casamento com fidelidade diante de Deus.