É difícil ouvir tantos relatos sem perguntar se o abuso está aumentando. Mas precisamos separar duas coisas: o número de abusos que acontecem e o número de abusos que são descobertos. Mais denúncias podem indicar que mais crianças estão sendo ouvidas e que crimes antes escondidos estão vindo à tona. Isso não permite concluir, por si só, que os abusos se tornaram mais frequentes. Também não diminui a gravidade do que está sendo revelado.
Não existe uma causa única que explique todos os casos. O que existe é uma combinação de escolhas de quem abusa e de situações que permitem que o crime aconteça ou continue. O adulto se aproveita da vulnerabilidade da criança e, muitas vezes, da confiança que ela e sua família depositam nele. Pode usar sua autoridade, fazer ameaças ou confundir a criança pra que ela fique em silêncio. A responsabilidade é sempre de quem pratica o abuso, nunca da criança.
O silêncio de outras pessoas também pode permitir que o abuso continue. Isso pode acontecer numa família, escola, igreja ou qualquer outro lugar. Às vezes, adultos ignoram sinais, não levam a criança a sério ou preferem proteger a reputação de alguém respeitado. Por isso, quando surgem denúncias envolvendo líderes religiosos, é importante dizer com clareza: ocupar um cargo na igreja não torna ninguém incapaz de cometer esse crime, e preservar o nome de uma instituição nunca é mais importante do que proteger uma criança.
A Bíblia nos ajuda a entender a seriedade moral do abuso, mas não oferece uma explicação estatística pra uma suposta onda recente. Jesus acolhia as crianças e tratava com extrema gravidade fazer mal a pessoas vulneráveis (Mateus 19:14; Lucas 17:1-2). A Bíblia também ensina que o mal não pode ser explicado apenas pelo ambiente ao redor: pessoas são responsáveis pelos desejos e pelas escolhas que alimentam (Marcos 7:20-23; Tiago 1:14-15). Isso não significa que toda pessoa que comete esse crime tenha a mesma história ou motivação. Significa que nenhuma explicação sobre suas circunstâncias tira sua responsabilidade.
Também não seria correto dizer que o abuso infantil é consequência de pessoas não serem cristãs, de aceitarem a evolução ou de determinadas relações entre adultos. Essas afirmações não demonstram a causa do crime e podem desviar a atenção de onde ela precisa estar. O abuso pode ocorrer inclusive em ambientes que afirmam seguir a Bíblia. Da mesma forma, não temos base pra dizer que um caso específico foi causado por possessão demoníaca.
Então, a resposta mais honesta é esta: não sabemos se os relatos recentes indicam um aumento geral dos abusos, uma melhora nas denúncias ou uma combinação das duas coisas. Sabemos, porém, que cada caso envolve uma criança a ser protegida e um agressor que precisa ser responsabilizado. Se uma criança contar que sofreu abuso, o primeiro passo é ouvi-la sem culpá-la, cuidar de sua segurança e procurar os órgãos de proteção e as autoridades competentes. Isso importa mais do que defender qualquer explicação geral pra tantos casos.