Pastor Antônio Junior

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Sofri abuso. Por que me sinto culpada?

Autor: Admin

Publicado: 2026-11-05

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Você pode se sentir culpada mesmo sem ter feito nada de errado. Depois de um abuso, é comum a pessoa voltar muitas vezes ao que aconteceu e pensar: “E se eu tivesse percebido antes? E se eu tivesse reagido de outro jeito?” Essas perguntas podem parecer uma busca por explicação, mas acabam colocando sobre você a responsabilidade por uma escolha que foi de quem abusou.

Durante uma situação de ameaça, nem sempre a pessoa consegue gritar, fugir ou lutar. Algumas ficam paralisadas; outras fazem o que parece necessário pra sobreviver. Não resistir não significa concordar. Confiar em alguém, ter ido a determinado lugar ou não ter previsto o perigo também não torna você responsável pelo abuso.

Isso é especialmente importante quando o abuso aconteceu na infância. Uma criança não tem a responsabilidade de entender ou impedir as atitudes sexuais de um adulto ou de alguém mais velho que se aproveitou dela. Mesmo que, hoje, alguma lembrança lhe cause confusão — inclusive se você não resistiu, procurou agradar aquela pessoa ou teve alguma reação física — isso não transforma o abuso em escolha sua. Uma reação do corpo não é consentimento.

A Bíblia faz uma distinção que pode ajudar você a enxergar isso com mais clareza: sofrer uma violência não é o mesmo que cometê-la. Na lei dada a Israel, quando uma mulher era forçada a ter relações sexuais, a culpa não era atribuída a ela, mas ao agressor (Deuteronômio 22:25-27). E, depois que Tamar foi violentada, o relato bíblico mostra a dor e a vergonha que ela sentiu, sem apresentar a violência sofrida como pecado dela (2 Samuel 13:11-20). Sentir vergonha, portanto, não é prova de que você seja culpada.

Talvez você também esteja se perguntando como Deus olha pra você agora. Ele não confunde a ferida que alguém causou em você com um pecado que você cometeu. O Salmo 34:18 apresenta Deus como alguém próximo dos que estão com o coração ferido. Você não precisa se declarar culpada pra levar sua dor até ele.

Se houve, em algum momento da sua vida, uma escolha sua pela qual você queira pedir perdão a Deus, pode tratar disso com sinceridade. Mas não coloque nessa conta a violência que outra pessoa decidiu praticar. E você não precisa conseguir organizar todas as lembranças, parar de se sentir culpada ou “se perdoar” antes de buscar ajuda. Sentimentos depois de um trauma podem demorar a acompanhar aquilo que você já começa a entender.

Se o abuso ainda está acontecendo, sua segurança vem primeiro. Procure, se puder, uma pessoa de confiança e ajuda especializada. Conversar com um profissional preparado pra lidar com trauma também pode ajudar você a examinar essas lembranças sem carregar uma culpa que não é sua. Você merece ser ouvida com respeito, e não julgada pelo que fizeram com você.