A razão não era simplesmente o fato de aquelas mulheres terem nascido em outros países. A preocupação, no tempo de Esdras, era que os israelitas estavam se casando com pessoas ligadas à adoração de outros deuses e voltando a práticas das quais Deus havia mandado seu povo se afastar. Mesmo assim, a decisão de separar famílias — incluindo os filhos — é dolorosa, e o relato não responde a todas as perguntas que ela levanta.
Isso aconteceu depois que parte dos judeus voltou do exílio na Babilônia. Eles estavam reconstruindo sua vida em Jerusalém, após uma época em que a infidelidade a Deus havia contribuído para a ruína da nação. Então Esdras soube que muitos israelitas, inclusive líderes religiosos, tinham se casado com mulheres dos povos ao redor e adotado práticas que a Lei condenava (Esdras 9:1-2). Era justamente esse o perigo apontado em Deuteronômio 7:3-4: tais casamentos poderiam levar o povo a abandonar o Senhor e servir a outros deuses.
Não se tratava de uma proibição contra toda pessoa estrangeira. Rute, por exemplo, era moabita e passou a adorar o Deus de Israel; ela se casou com Boaz, e sua história é contada de maneira positiva na Bíblia (Rute 1:16; 4:13-17). O problema em Esdras era a infidelidade religiosa envolvida naqueles casamentos, não a origem das mulheres por si só.
Enquanto Esdras orava e o povo reconhecia seu pecado, um dos homens propôs uma aliança: despedir aquelas mulheres e os filhos nascidos dessas uniões (Esdras 10:2-3). Esdras apoiou a separação, e os casos foram examinados ao longo dos meses seguintes (Esdras 10:10-17). É importante distinguir o que o texto diz: a proposta de despedir também os filhos partiu do povo. O relato não traz uma ordem anterior de Deus dizendo expressamente que os filhos deveriam ser mandados embora, nem explica como eles e suas mães seriam amparados depois. Não seria honesto preencher esse silêncio com suposições, nem tratar o sofrimento dessas famílias como algo sem importância.
Por que, então, chegaram a uma medida tão dura? Naquele momento, o povo entendeu que precisava romper com casamentos que contrariavam a Lei e que poderiam levá-lo outra vez à idolatria. Esdras registra essa decisão como parte do arrependimento da comunidade. Ao mesmo tempo, o relato descreve uma situação específica da história de Israel; ele não estabelece uma regra geral para qualquer casamento entre pessoas de crenças diferentes.
O Novo Testamento deixa isso claro para os cristãos. Paulo ensina que, se uma pessoa se torna cristã e seu marido ou sua esposa não compartilha da fé, ela não deve se divorciar só por esse motivo, desde que o outro queira continuar no casamento (1 Coríntios 7:12-13). Se o cônjuge que não crê decidir partir, Paulo diz que o cristão não precisa obrigá-lo a ficar (1 Coríntios 7:15).
Portanto, a resposta é: aquelas separações ocorreram porque os israelitas, sob a Lei de Moisés, reconheceram que seus casamentos estavam ligados à desobediência e ao risco de voltar à adoração de outros deuses. Isso explica a decisão registrada em Esdras, mas não torna simples a situação das mulheres e das crianças, sobre cujo futuro a Bíblia não dá detalhes. E não autoriza ninguém hoje a abandonar o cônjuge ou os filhos por causa da origem ou da religião deles.