Porque vivemos num mundo em que nem sempre as pessoas fazem o que é certo e em que coisas dolorosas também acontecem sem que alguém as tenha provocado. Quem age com honestidade pode ser prejudicado. Quem trabalha muito pode perder o emprego. Uma pessoa bondosa pode adoecer, enquanto alguém cruel parece viver sem dificuldades. A Bíblia não pede que a gente finja que isso é justo.
Eclesiastes 9:11 observa que o mais rápido nem sempre vence a corrida, nem o mais sábio consegue tudo de que precisa. Em outras palavras, esforço e boas escolhas são importantes, mas não nos dão controle sobre tudo o que acontece.
Parte da injustiça vem das decisões humanas. Ganância, mentira, violência e abuso de poder fazem pessoas sofrerem. Jesus contou a história de um juiz que não se importava com Deus nem com as pessoas; uma viúva precisou insistir pra que ele atendesse ao seu pedido de justiça (Lucas 18:1-8). Quando alguém com poder age assim, outros pagam o preço.
Mas nem todo sofrimento pode ser explicado pela maldade de alguém, muito menos por uma culpa de quem sofre. Ao falar de uma tragédia em que pessoas morreram, Jesus rejeitou a ideia de que elas fossem mais culpadas que as demais (Lucas 13:1-5). Por isso, diante da dor de alguém, não devemos presumir que Deus esteja castigando aquela pessoa.
A dúvida fica ainda mais difícil quando lembramos que Deus é justo. Se ele é justo, por que permite que pessoas más prosperem e pessoas boas sofram? O autor do Salmo 73 fez praticamente essa pergunta. Ele via pessoas arrogantes vivendo bem, enquanto ele enfrentava aflições. O salmo não diz que sua dor era imaginária. O que mudou foi sua compreensão de que a situação presente não era o fim da história: a prosperidade dos maus não significava que Deus aprovava o que faziam (Salmo 73:2-3, 16-19).
Isso não quer dizer que toda injustiça será resolvida rapidamente, nem que quem confia em Deus terá uma vida fácil. Jesus, que não cometeu pecado, foi condenado e morto injustamente. Sua ressurreição mostra que aquela injustiça não teve a última palavra (1 Pedro 2:22-24; Atos 2:23-24). A esperança cristã é que Deus julgará o mal e acabará com o sofrimento, como promete Apocalipse 21:3-4. Essa esperança se apoia em Jesus, não na ideia de que conseguimos merecer uma vida sem dor.
Enquanto esse dia não chega, reconhecer que a vida é injusta não é motivo pra aceitar a injustiça como se nada pudesse ser feito. Deus nos chama a agir com justiça e misericórdia (Miqueias 6:8). Podemos defender quem está sendo prejudicado, tratar as pessoas com honestidade e ajudar quem sofre, sem oferecer explicações fáceis pra uma dor que não entendemos.
A vida nem sempre dá a cada pessoa o que ela merece. Deus, porém, não chama o mal de bem, não ignora quem sofre e não deixará a injustiça sem resposta.