Não há motivo pra concluir isso. O cérebro participa de tudo o que pensamos e decidimos, mas descobrir processos químicos envolvidos numa escolha não prova que a escolha seja uma ilusão. A pergunta mais difícil é outra: esses processos explicam completamente por que decidimos, ou descrevem o que acontece no cérebro enquanto decidimos? A ciência ainda não resolveu essa questão.
Pense numa decisão comum: alguém ofende você, e você escolhe entre responder com raiva ou se controlar. Sua memória, suas emoções, seu cansaço e a atividade do seu cérebro influenciam essa resposta. Seria um erro fingir que nada disso importa. Mas também seria um salto dizer que, porque há atividade cerebral, você não avaliou o que aconteceu nem tomou uma decisão. A atividade do cérebro e a decisão não são necessariamente duas coisas concorrentes; podem ser maneiras diferentes de olhar pro mesmo acontecimento.
É importante, então, esclarecer o que queremos dizer com “livre-arbítrio”. Se a expressão significar uma liberdade absoluta, sem nenhuma influência do corpo, da história de vida ou dos desejos, não é assim que a Bíblia descreve o ser humano. Nossas escolhas são reais, mas não acontecem no vazio. Podemos ser influenciados pelo medo, por hábitos, por outras pessoas e até por condições de saúde. Reconhecer essas influências não é o mesmo que dizer que ninguém escolhe nada.
A Bíblia trata as pessoas como responsáveis por aquilo que fazem. Deus chama o povo de Israel a escolher a vida (Deuteronômio 30:19), e Jesus convida pessoas a segui-lo (Marcos 8:34). Esses chamados fazem sentido porque nossas decisões importam. Ao mesmo tempo, a Bíblia diz que o pecado afeta profundamente nossos desejos e que precisamos da ajuda de Deus pra viver de acordo com a vontade dele (João 8:34-36; Filipenses 2:13). Portanto, ela não ensina nem que somos máquinas sem responsabilidade, nem que temos uma liberdade independente de tudo e de todos.
A Bíblia também apresenta o ser humano como mais do que uma simples lista de substâncias químicas: fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1:26-27). Isso fala do nosso valor diante dele e da maneira como devemos tratar uns aos outros. Mas esse texto não explica, em detalhes, como a consciência se relaciona com o cérebro. Não seria correto usá-lo como se fosse uma resposta científica pronta pra essa questão.
Também é bom evitar um argumento comum, mas fraco: dizer que quem nega o livre-arbítrio não pode raciocinar ou chegar a uma conclusão verdadeira. Mesmo alguém que acredita que nossos pensamentos têm causas físicas pode defender que examinamos evidências e corrigimos erros. O debate não se resolve desqualificando essa pessoa. O ponto é perguntar se a explicação que ela oferece dá conta de tudo o que vivemos quando pensamos, avaliamos razões e decidimos.
Assim, a resposta mais honesta é esta: a química do cérebro influencia nossas escolhas, mas não foi demonstrado que ela torne a liberdade humana uma ilusão. A Bíblia nos chama a levar nossas decisões a sério, sem esquecer que somos pessoas limitadas, influenciadas por muitas coisas e necessitadas da graça de Deus.