Esse arrependimento não se limita ao rito de confessar pecados a um sacerdote.
3. Ele também não pode ficar só no íntimo: precisa aparecer na maneira de viver.
4. A luta ligada ao arrependimento continua enquanto a pessoa vive.
5. O papa só pode retirar penas que ele mesmo ou as regras da Igreja impuseram.
6. Ele não apaga, por autoridade própria, a culpa do pecado; pode declarar o perdão dado por Deus e agir nos casos sob sua responsabilidade.
7. Lutero ainda entendia que a pessoa perdoada por Deus devia se submeter à orientação do sacerdote.
8. As regras da Igreja sobre penitências se aplicam aos vivos, não aos mortos.
9. Por isso, ao tratar dessas regras, é correto levar em conta a morte e os casos de necessidade.
10. Sacerdotes erram ao deixar para o purgatório penitências que foram impostas nesta vida.
11. Confundir uma pena estabelecida pela Igreja com uma pena no purgatório é um erro.
12. Antigamente, as penitências eram cumpridas antes da absolvição, como sinal de arrependimento.
13. Quem morre deixa de estar sujeito às regras eclesiásticas sobre penitências.
14. Lutero associava o medo de quem está morrendo à falta de amor perfeito a Deus.
15. Na visão que ele apresentava ali, esse medo já se aproximava do sofrimento atribuído ao purgatório.
16. Ele comparava inferno, purgatório e céu a diferentes condições de desespero e segurança.
17. Lutero levantava uma questão sobre a relação entre o medo e o amor das almas no purgatório.
18. Ele dizia que não estava provado, pela razão ou pela Escritura, que essas almas não pudessem crescer no amor.
19. Também considerava não comprovado que todas tivessem certeza da própria salvação.
20. Assim, quando o papa fala em retirar todas as penas, isso deve se referir às penas sob sua autoridade.
21. Erram os pregadores que dizem que uma indulgência livra alguém de toda pena e lhe garante a salvação.
22. O papa não pode simplesmente retirar de quem morreu uma penitência estabelecida pra esta vida.
23. Uma dispensa completa de penas, se possível, não seria algo comum.
24. Prometer isso a todos engana muita gente.
25. Lutero questionava a ideia de que o papa tivesse sobre o purgatório um poder diferente, em essência, do poder local de bispos e sacerdotes.
26. Quanto às almas no purgatório, ele falava em oração a favor delas, não em poder direto do papa pra libertá-las.
27. É ensino humano dizer que uma alma sai do purgatório assim que uma moeda cai na caixa.
28. A moeda pode aumentar o dinheiro arrecadado; a resposta à oração depende de Deus.
29. Lutero fazia outra pergunta: quem sabe ao certo o que se passa com todas as almas no purgatório?
30. Ninguém pode ter certeza perfeita da profundidade do próprio arrependimento, muito menos garantir uma dispensa completa de penas.
31. Por isso, ele dizia que seria raríssimo obter uma indulgência de modo verdadeiro.
32. Quem confia numa carta de indulgência pra garantir a salvação está em grave perigo.
33. É preciso desconfiar de quem apresenta a indulgência como o meio pelo qual a pessoa é reconciliada com Deus.
34. A indulgência trata de penas estabelecidas no sistema de penitências da Igreja, não do perdão da culpa por Deus.
35. Está errado ensinar que alguém pode buscar esses benefícios sem arrependimento.
36. O cristão verdadeiramente arrependido recebe perdão sem precisar de uma carta de indulgência.
37. Os benefícios que vêm de Cristo são dádiva de Deus, não algo comprado por meio dessa carta.
38. Mesmo assim, Lutero ainda dizia que não se devia desprezar a declaração de perdão feita pelo papa.
39. É difícil pregar sobre indulgências sem enfraquecer, aos olhos do povo, a importância do arrependimento.
40. Quem se arrepende de verdade aceita lidar com as consequências do pecado; as indulgências podem levá-lo a querer apenas escapar delas.
41. Por isso, as indulgências precisam ser anunciadas com muito cuidado.
42. Não se deve colocá-las no mesmo nível das obras de misericórdia.
43. Ajudar uma pessoa pobre ou necessitada é melhor do que comprar uma indulgência.
44. O amor ao próximo transforma a maneira de viver; uma indulgência não faz isso.
45. Quem ignora alguém necessitado pra gastar dinheiro com indulgências age contra a vontade de Deus.
46. Ninguém deve tirar da própria família o que ela precisa pra comprar indulgências.
47. Comprá-las não é uma obrigação cristã.
48. Lutero dizia que o papa deveria desejar mais as orações dos cristãos do que o dinheiro deles.
49. Uma indulgência se torna especialmente prejudicial quando leva alguém a deixar de levar Deus a sério.
50. Lutero argumentava que, se o papa soubesse como certos pregadores tiravam dinheiro do povo, preferiria ver a Basílica de São Pedro destruída a construí-la dessa maneira.
51. Ele também dizia que o papa deveria socorrer os pobres de quem esse dinheiro era tirado.
52. Nenhuma garantia dada por uma autoridade humana torna segura a salvação por meio de cartas de indulgência.
53. É errado calar a pregação da Palavra de Deus pra dar espaço à pregação das indulgências.
54. Também é errado dedicar a elas, num sermão, tanto tempo quanto à Palavra de Deus, ou mais.
55. Se uma indulgência recebe grande atenção, o evangelho deveria receber atenção muito maior.
56. O povo não entendia claramente o que seriam os chamados “tesouros da Igreja”, usados pra justificar as indulgências.
57. Esses tesouros não podiam ser simplesmente riquezas materiais.
58. Lutero também questionava a explicação de que se tratava dos méritos de Cristo e dos santos distribuídos pelo papa.
59. Ele lembrava uma antiga afirmação de que os pobres são tesouros da Igreja.
60. Em seguida, sugeria outra explicação ligada à autoridade concedida à Igreja por Cristo.
61. Reconhecia que o papa tinha autoridade pra tratar das penas e dos casos sob sua responsabilidade.
62. Mas afirmava que o verdadeiro tesouro da Igreja é o evangelho da graça de Deus.
63. Esse evangelho encontra resistência porque contraria o orgulho humano.
64. As indulgências, ao contrário, agradam a muita gente.
65. Lutero comparava a pregação do evangelho à busca de pessoas pra Cristo.
66. Já a pregação das indulgências, em sua crítica, buscava o dinheiro das pessoas.
67. Chamá-las de grandes benefícios fazia sentido apenas pra quem lucrava com elas.
68. Diante da graça de Deus, porém, tinham importância muito pequena.
69. Bispos e sacerdotes deviam receber respeitosamente os enviados autorizados a pregar indulgências.
70. Mas deviam vigiar ainda mais pra que esses pregadores não inventassem ensinos.
71. Lutero não dizia, naquele momento, que toda indulgência era falsa.
72. Ele elogiava quem se opunha aos abusos dos pregadores.
73. Reconhecia que o papa podia agir contra fraudes ligadas às indulgências.
74. E argumentava que deveria agir com ainda mais força contra quem usava as indulgências pra prejudicar o amor e a verdade.
75. É absurdo dizer que uma indulgência pode resolver até mesmo qualquer pecado imaginável.
76. Ela não apaga a culpa nem do menor pecado.
77. Lutero rejeitava a ideia de que o papa não pudesse oferecer benefícios espirituais maiores que as indulgências.
78. O evangelho e os dons dados por Deus à Igreja são muito maiores.
79. É ofensivo colocar símbolos do papa no mesmo nível da cruz de Cristo.
80. Líderes e professores da Igreja teriam de responder por permitir esse tipo de pregação.
81. Os exageros dos pregadores tornavam difícil responder às perguntas sinceras do povo.
82. Por exemplo: se o papa pudesse tirar almas do purgatório, por que não faria isso por amor, sem receber dinheiro?
83. Por que manter orações e ofertas pelos mortos se eles já teriam sido libertos por indulgências?
84. Por que o dinheiro permitiria ajudar uma alma, mas o amor, por si só, não?
85. Por que cobrar pra retirar penas ligadas a regras antigas que já nem eram usadas?
86. Por que construir a Basílica de São Pedro com o dinheiro de fiéis pobres, em vez de usar os recursos do próprio papa?
87. O que uma indulgência acrescentaria a alguém que já tivesse recebido perdão completo?
88. Se concedê-la ajudasse tanto a Igreja, por que não fazê-lo muito mais vezes?
89. Se o objetivo principal fosse ajudar as pessoas, por que suspender indulgências concedidas antes?
90. Calar essas perguntas pela força, sem respondê-las, prejudicaria a Igreja e os cristãos.
91. Lutero argumentava que, se as indulgências fossem pregadas corretamente, essas objeções nem surgiriam.
92. Devem ser rejeitados os pregadores que prometem paz a quem não está bem diante de Deus.
93. Devem ser ouvidos os que ensinam os cristãos a não fugir das dificuldades de seguir a Cristo.
94. Os cristãos devem ser encorajados a seguir Jesus mesmo quando isso traz sofrimento.
95. Sua esperança não deve estar numa promessa fácil de segurança, mas em seguir Cristo em meio às dificuldades.
Lendo a lista inteira, dá pra perceber por que as teses causaram tanto debate. Lutero não estava apenas reclamando de uma campanha de arrecadação. Ele perguntava quem pode perdoar a culpa do pecado, o que significa se arrepender e por que a pregação do evangelho estava recebendo menos atenção que a venda de indulgências.
Essas perguntas também ajudam a ler o assunto à luz da Bíblia. Jesus chama as pessoas ao arrependimento (Marcos 1:15), e o Novo Testamento apresenta o perdão como dádiva de Deus, ligada a Cristo, não como algo adquirido com dinheiro (Efésios 2:8-9; 1 Pedro 1:18-19). Ao mesmo tempo, é bom não atribuir às 95 teses tudo o que mais tarde passou a caracterizar a Reforma Protestante. Elas foram o início de uma discussão que ainda mudaria muito nos anos seguintes.