Pastor Antônio Junior

Onde as Escrituras Hebraicas falam da morte e da ressurreição do Messias?

As passagens mais importantes são Isaías 53, Salmo 22 e Salmo 16. Elas não contam a história de Jesus antecipadamente, em todos os detalhes e numa sequência única. Mas, lidas à luz da morte e da ressurreição dele, ajudam a entender por que os primeiros cristãos reconheceram nesses acontecimentos o cumprimento das Escrituras.

Isaías 53 é o texto mais direto sobre a morte. O profeta fala de um servo de Deus que é rejeitado, sofre por causa dos pecados de outros, morre e é sepultado (Isaías 53:3-9). A ideia central não é apenas que uma pessoa justa sofre injustamente. É que seu sofrimento traz benefício a outros: o servo leva sobre si as consequências dos pecados deles. Por isso, o Novo Testamento relaciona essa passagem à morte de Jesus (1 Pedro 2:22-25).

O texto também levanta a questão da ressurreição. Depois de falar da morte do servo, Isaías diz que ele verá o resultado do seu sofrimento e que seus dias serão prolongados (Isaías 53:10-11). Para os cristãos, isso faz sentido porque Deus ressuscitou Jesus: ele morreu, mas não permaneceu morto. É importante, porém, perceber a diferença entre as duas afirmações: a morte aparece expressamente em Isaías 53; a ressurreição é entendida a partir do que o texto diz sobre a vida do servo depois desse sofrimento.

O Salmo 22 ajuda a entender o sofrimento de Jesus. Nele, uma pessoa que sofre clama a Deus enquanto é desprezada e cercada por inimigos. O salmo menciona gente que zomba dela e reparte suas roupas por sorteio (Salmo 22:7-8, 18). Os evangelhos mostram essas semelhanças na crucificação de Jesus (Mateus 27:35, 39-43). O próprio Jesus recorre às palavras iniciais desse salmo na cruz (Mateus 27:46).

Algumas traduções de Salmo 22:16 falam de mãos e pés traspassados, mas há uma dificuldade na transmissão do texto hebraico desse versículo. Por isso, não é prudente fazer desse detalhe uma prova isolada da crucificação. E, embora o salmo termine com louvor a Deus, ele não afirma diretamente que o sofredor morreu e ressuscitou. Sua relação mais clara com Jesus está no sofrimento descrito ali.

Já o Salmo 16 é a passagem que os apóstolos usam de modo mais direto ao anunciar a ressurreição. O salmista expressa confiança de que Deus não o abandonará à morte nem permitirá que seu fiel veja a decomposição (Salmo 16:10). Em Atos 2:25-32, Pedro explica por que entende que essas palavras apontam para Jesus: Davi, a quem o salmo é atribuído, morreu e foi sepultado; Jesus, porém, foi ressuscitado. Paulo apresenta o mesmo argumento em Atos 13:34-37.

Assim, há uma distinção útil: Isaías 53 fala claramente de uma morte ligada aos pecados de outros; o Salmo 22 descreve um sofrimento que os evangelhos relacionam à crucificação; e o Salmo 16 é aplicado diretamente à ressurreição pelos apóstolos. A leitura cristã dessas passagens se apoia no que aconteceu com Jesus e na maneira como o Novo Testamento explica esses acontecimentos. Nem todos os leitores judeus entendem, por exemplo, que o servo de Isaías 53 seja o Messias; essa identificação faz parte da interpretação cristã do texto.