Pastor Antônio Junior

Como o Renascimento mudou o cristianismo?

O Renascimento ajudou muitos cristãos a fazer uma pergunta importante: o que os textos bíblicos dizem, antes de tudo, em suas línguas originais? Esse interesse não criou a Reforma Protestante por si só, mas deu aos seus líderes ferramentas para estudar a Bíblia, discutir os ensinos da igreja e levar as Escrituras a mais pessoas.

Entre os séculos XIV e XVI, estudiosos europeus passaram a dar mais atenção aos textos antigos e ao estudo das línguas em que foram escritos. No caso da fé cristã, isso aumentou o interesse pelo hebraico do Antigo Testamento, pelo grego do Novo Testamento e pelos escritos dos primeiros cristãos.

Isso não quer dizer que, antes do Renascimento, ninguém estudava a Bíblia. Teólogos medievais a estudavam, pregavam e escreviam sobre ela. Mas, no Ocidente, o ensino costumava se apoiar bastante na Bíblia em latim e em obras de teólogos anteriores. O novo interesse pelas línguas antigas permitiu comparar essas obras e traduções com os textos bíblicos disponíveis em hebraico e grego. Assim, algumas interpretações tradicionais passaram a ser examinadas com mais cuidado.

Um exemplo foi Erasmo de Roterdã. Em 1516, ele publicou uma edição impressa do Novo Testamento em grego, acompanhada de uma tradução latina feita por ele. Seu trabalho tinha limitações, pois dependia dos manuscritos a que ele teve acesso. Ainda assim, facilitou o estudo e a comparação do texto bíblico. Reformadores, entre eles Martinho Lutero, aproveitaram esse tipo de estudo ao discutir o que a igreja ensinava.

A imprensa também foi decisiva. Ela não surgiu como parte da Reforma, mas tornou muito mais rápida a produção de livros e a divulgação de ideias. Lutero publicou sua tradução alemã do Novo Testamento em 1522, e outros trabalharam em traduções para diferentes línguas. Ter a Bíblia na língua do povo não significava que todos já soubessem ler ou pudessem comprar um exemplar. Significava, porém, que cada vez mais pessoas podiam ouvir e ler as Escrituras numa língua que entendiam.

O Renascimento e a Reforma, portanto, estão ligados, mas não são a mesma coisa. O Renascimento foi um movimento amplo de estudo, arte e cultura. A Reforma foi um movimento de mudança na igreja. Os reformadores usaram recursos que aquele ambiente oferecia — o estudo das línguas antigas e a imprensa — para defender que os ensinos cristãos deveriam ser avaliados à luz das Escrituras. Para eles, a salvação vem pela fé em Cristo, não pelo cumprimento de exigências religiosas como forma de merecê-la (Efésios 2:8-9). Também ensinavam que os cristãos podem se aproximar de Deus por meio de Jesus, sem depender de um sacerdote como mediador entre eles e Deus (Hebreus 4:14-16; 1 Timóteo 2:5). Isso não eliminava a necessidade de pastores e mestres, mas questionava o poder que a igreja medieval atribuía a seus ministros.

É importante não simplificar o resultado. Nem todos os estudiosos do Renascimento se tornaram protestantes; muitos continuaram católicos. E a ampliação do estudo bíblico não acabou com as divergências entre cristãos. O movimento também não pode ser descrito, como um todo, nem como um retorno à Bíblia nem como uma rejeição dela. Seus participantes tinham interesses e convicções diferentes.

Em resumo, o maior impacto do Renascimento no cristianismo foi abrir novas possibilidades de estudo e divulgação das Escrituras. Ele ajudou a preparar o ambiente em que a Reforma aconteceu e tornou possível que mais pessoas entrassem em contato com a Bíblia em sua própria língua.